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Eugénia e Gonçalo lideram o restaurante escondido em Évora recomendado pelo Guia Michelin

O anúncio oficial de Restaurante Recomendado surgiu em 2018. Desde então que o espaço tem renovado a distinção anualmente.

É na Rua de Burgos, uma ruela estreita do centro histórico de Évora, que encontramos o restaurante Origens, que tem motivos de sobra para celebrar. Com quase uma década de portas abertas, o projeto celebrou, mais uma vez, a renovação da sua presença no Guia Michelin 2026. Este reconhecimento, consecutivo desde 2018, é atribuído pelos críticos que percorrem o País à procura da excelência na cozinha.

Por detrás deste sucesso está Gonçalo Queiroz, de 40 anos, que assume o comando da cozinha como chef, e Eugénia Queiroz, de 44 anos, responsável pela sala e sommelier. Mas a história deste espaço vai muito além das distinções. Tudo começou com uma verdadeira viagem de regresso a casa. “Estávamos a voltar às nossas origens e daí a origem do nome”, contam.

Isto porque a semente do Origens não foi plantada em solo português, mas sim a milhares de quilómetros de distância. Antes de se fixarem em Évora, Gonçalo e Eugénia emigraram para o Dubai e foi lá, durante dois anos, que Gonçalo assumiu a cozinha do único restaurante português de todo o Médio Oriente na altura, o Picante no Four Points. “Andei a desbravar mato para a cozinha portuguesa entrar no Médio Oriente, porque a maior parte das pessoas não conheciam muito bem os nossos pratos”, recorda o chef à New in Évora.

Contudo, ao fim desse período, a vontade de regressar a casa falou mais alto, após passagens por cozinhas como o Tavares Rico, um estágio em Espanha com Quique da Costa, e o L’AND Vineyards, antes de este receber a estrela Michelin. No entanto, Gonçalo sentia que era o momento de criar o seu próprio percurso. “Como já tinha tido a experiência internacional, queria conseguir que a cozinha portuguesa chegasse aos paladares não só dos estrangeiros, como também dos portugueses. Somos muito autocríticos e exigentes com a nossa gastronomia”, explica o chef.

O desejo de reapresentar a cozinha portuguesa, aliado aos produtos da região e a uma abordagem mais saudável, materializou-se em 2015, quando adquiriram o espaço na Rua de Burgos. O casal deitou mãos à obra, partiram paredes e remodelaram tudo a pulso. Até que, em 2016, o Origens abriu finalmente as portas para a cidade.

De Évora ao Guia Michelin

A entrada no conceituado Guia Michelin aconteceu de forma inusitada, logo nos primeiros meses de 2017, quando um cliente se sentou à mesa, jantou tranquilamente e, após regressar da casa de banho e vestir o casaco, pediu para falar com o chef. Nesse momento identificou-se como inspetor do guia Michelin. “Ele abriu a ficha e disse que, a partir daquele momento, íamos ser inspecionados e nunca íamos saber quem eram”, detalha Eugénia.

O anúncio oficial da entrada no guia aconteceu em 2018, inicialmente com a distinção Bib Gourmand, focada na excelente relação qualidade-preço. Hoje, exibem o selo de Restaurante Recomendado, que os apanhou completamente desprevenidos. “Nesse dia houve pessoas a reclamar de um bacalhau que estava muito salgado, e tudo corria mal”, recorda Eugénia, entre risos.

Sem fazerem ideia de que a gala Michelin estava a decorrer nessa noite, os telefones começaram a tocar ininterruptamente à meia-noite, com mensagens de parabéns. Tiveram de parar tudo e ir à internet confirmar a novidade. “Tem outro gosto. É diferente receber esta distinção no nosso próprio projeto. Não estávamos à espera”, sublinha Gonçalo Queiroz.

Se nos primeiros tempos de vida, o Origens servia “o prato da casa”, a exigência dos clientes ditou um novo rumo. “As pessoas começaram a dizer: ‘chef, isto consigo comer em casa da minha avó, queria comer os seus pratos'”, recordam por ter sido este o empurrão para transitarem para uma comida de autor, baseada no receituário da região.

Hoje, o restaurante orgulha-se por estar integrado na rede “quilómetro zero” da Câmara Municipal de Évora, garantindo que entre 80 a 90 por cento dos seus produtos provêm de um raio de apenas 30 quilómetros, trabalhando diretamente com agricultores locais para o fornecimento de batatas, cebolas e outros vegetais.

Da matemática para a alta cozinha

Já a presença de Eugénia na sala é um complemento para a cozinha de Gonçalo, apesar do seu percurso ter sido improvável. Vinda da área da matemática, prometeu a Gonçalo que o ajudaria no restaurante apenas nos primeiros seis meses. “Enganei-a”, confessa o chef entre risos. Eugénia apaixonou-se irremediavelmente pelo mundo vitivinícola, tirou o curso de escanção e decidiu mudar de vida. “Prefiro ensinar sobre vinhos do que matemática. Os clientes gostam bastante quando aprendem, saem de lá a saber sempre um pouco mais sobre o Alentejo”, reflete.

Para serem uma “boa montra do Alentejo”, as decisões sobre os menus geram “discussões saudáveis”. Isto porque quando o chef Gonçalo aposta num prato com sabores fortes de umami, misturando beterraba com cogumelos para respeitar a sazonalidade, Eugénia quer garantir que os vinhos alentejanos da sua garrafeira conseguem harmonizar na perfeição com essas criações.

Deixando a modalidade à carta, o Origens funciona hoje com uma estrutura de degustação. Os visitantes podem optar por colocar a sua confiança nas mãos do chef em menus de três momentos, por 35€ por pessoa, ou de cinco momentos, por 60€ por pessoa, ambos com a hipótese de acrescentar a harmonização de vinhos por mais 26€ e 35€, respetivamente. E não ficam por aqui. A próxima novidade será um menu de sete momentos, que já se encontra em fase de testes e chegará muito em breve à sala do restaurante.

A criatividade do casal nota-se nos pormenores. Entre as opções existem entradas, como as tarteletes de cogumelos (16€) ou de carne (16€), o foie gras corado com romã e vinho do Porto (28€) e as vieiras caramelizadas em manteiga e puré de cenoura assada (29€). Já nos pratos principais, encontramos o peixe do dia (26€), o polvo assado com esparregado à alentejana (26€) ou o famoso lombinho de porco sous-vide (27€) – servido com batata nova assada, cebola, castanhas e couves-de-bruxelas. Nas sobremesas, destaca-se a degustação de vários doces (18€), que promete uma experiência completa.

E como 2026 marca o décimo aniversário do projeto, há um plano em marcha para que o Origens saia dos seus habituais 24 lugares e desça à rua para um evento que promete convidar chefs que acompanharam a década do projeto, oferecendo comida confecionada no fogo, música ao vivo e animação pela tarde fora.

Carregue na galeria e conheça melhor o projeto de Eugénia e Gonçalo Queiroz.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de Burgos, 10
    7000-863 Évora
  • HORÁRIO
  • Terça a Sábado:
  • 12h30 - 14h
  • 19h - 22h
PREÇO MÉDIO
Mais de 50€
TIPO DE COMIDA
Cozinha de Autor

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