Quando um cliente vegetariano se senta à mesa de um restaurante, a oferta resume-se, muitas vezes, a um prato de “esparguete com qualquer coisa”. Esta ausência de descrição nos menus sempre soou a “discriminação” para Leonor Venâncio, de 49 anos, e Edgar Silva, de 57.
Foi para contrariar esta realidade, e para preencher esta lacuna na cidade, que o casal decidiu abrir o Veggieterraneo, o restaurante mais recente do centro histórico de Évora. “Achei sempre discriminatório porque o menu tradicional inclui os pratos, muitas vezes com a descrição de cada um. E na opção vegetariana isso não acontece”, desabafa Leonor.
Este projeto, que nasce da união de Edgar, vegetariano a trabalhar na área da restauração há três décadas, e de Leonor, natural de Castro Verde. Rumou a Lisboa aos 21 anos, para estudar Arquitetura, para depois de se reformar da área e fixar residência em Évora Monte.
Embora continuasse a desenhar plantas esporadicamente, a sua veia criativa precisava de um novo rumo. Surgiu assim a cozinha, atividade que não lhe era estranha já que, desde os 15 anos, foi habituada a preparar as refeições juntamente com os pais. Com uma mãe focada na gastronomia tradicional e um pai exigente, que não gostava de provar sabores que não fossem os típicos, Leonor começou desde cedo a investigar, a misturar receitas e a inovar.
Durante muito tempo, quando Edgar sugeria abrirem um restaurante, a resposta de Leonor era negativa, pela pressão e stress associados às cozinhas profissionais, que assustavam a ex-arquiteta. Até que Leonor impôs como condição única – caso viesse a acontecer – “ter um restaurante com apenas uma ou duas mesas”.
Como a ideia se tornou uma realidade, existiu desde logo a necessidade de um espaço bonito, descontraído e com propostas diferentes na cidade. “Sentíamos falta de um sítio com um horário de fim de tarde. Onde, depois do trabalho e antes de ir para casa, se pudesse petiscar algo e beber um copo de vinho para descontrair”, conta Edgar.
Um espaço acolhedor, com três mesas
O Veggieterraneo materializou-se num espaço pequeno e acolhedor, onde o casal assume todo o trabalho do restaurante. O resultado é um ambiente cuidado, com atendimento próximo, e um espaço com apenas três mesas, duas delas compridas e propícias à partilha.
Já Leonor superou os medos iniciais e assumiu a cozinha. “Encaro este espaço como um ateliê de trabalho, um ateliê artístico”, confessa a responsável, visivelmente feliz por as pessoas reconhecerem a qualidade e o respeito pelos ingredientes.
A carta do Veggieterraneo, que contou com o apoio de um chef consultor na sua estruturação, tenta criar complexidade e riqueza com poucos ingredientes. O menu é quase inteiramente vegan, com a exceção de um único prato, desenhado assim porque a ex-arquiteta admite ser uma apaixonada por queijo.
A ideia nunca foi criar pratos pesados onde se tenta forçar “toda a proteína e vitamina necessária para um ser humano se alimentar”, mas oferecer comida simples, com elegância, sabor e a preços acessíveis.
Para começar, o grande destaque vai para a criação de Edgar, o torricado de cogumelos com pico de gallo e azeitona desidratada (7,50€), inspirado no tradicional torricado de bacalhau ribatejano. Nas opções de partilha, encontram-se ainda o torricado com escalivada (6€), as bolas de arroz e legumes com molho de pimento vermelho (7€) ou as batatas bravas com molho de tahini (5€).
Nos pratos principais, há couve-flor e cogumelos com arroz jasmim e amêndoa (13,50€), uma receita do chef consultor que conquistou os próprios donos, que até então não eram fãs deste vegetal. Outra grande estrela é o hambúrguer de sementes de cânhamo com legumes grelhados (13€) e a salada de abóbora, queijo de cabra, funcho e hortelã (12€).
Para terminar a refeição, as sobremesas fogem ao óbvio e o Veggieterraneo apresenta o banana brûlée (5,50€), finalizado com raspas de lima no topo e que tem sido um best-seller, assim como o pudim de abóbora e chia (5€).
Se os pratos impressionam pela criatividade, a carta de bebidas não fica atrás. Em vez de refrigerantes, o restaurante aposta na marca portuguesa e biológica Why Not?, com sabores como Romã e Pepino ou Flor de Sabugueiro e Yuzu (4€), bem como sumos naturais, como o de pera rocha, espinafres, lima e hortelã (4,50€), assim como uma seleção de tónicos e fermentados, de onde se destaca a kombucha original (4€) e o tónico de gengibre, limão, curcuma e mel (2,50€).
Para quem procura opções com álcool, o espaço apresenta vinhos naturais, sidra envelhecida em barricas de carvalho francês (20€) e cocktails de autor, como o gin com alecrim (10€) ou o veggie’s mule (11€).
Sobre o futuro, o casal revela que as expectativas traçadas vão além de converter pessoas ao vegetarianismo. A dupla quer demonstrar aos não-vegetarianos que esta comida é saborosa e interessante, incentivando à redução do consumo de carne. A longo prazo, Leonor e Edgar ambicionam fechar ciclos de sustentabilidade no restaurante, apostando cada vez mais na compostagem, no desperdício zero e na proximidade com produtores locais.
“Queremos que seja um espaço de serviço à comunidade, que seja próximo, informal e de onde a pessoa saia com um humor melhor do que aquele com que entrou”, remata Edgar.
Carregue na galeria e conheça mais do Veggieterraneo.







