A história de Cleide Dantas poderia ser transformada num filme de aventura, onde a paixão pela vida assume o papel principal. Aos 68 anos, a empresária brasileira carrega uma bagagem de vivências que a tornam na anfitriã perfeita. E foi com a certeza de que a vida é um ciclo e que “cada ano que passa está mais perto do último do que do primeiro” que decidiu abrir a 10 de julho a Caseirinha, o novo restaurante em Évora que promete ser um refúgio longe do reboliço turístico e um espaço para a proprietária receber e fazer novos amigos.
Antes de se dedicar aos tachos e panelas no Alentejo, Cleide construiu uma carreira no mercado imobiliário no Brasil. Trabalhou durante anos com grandes construtoras, vendendo imóveis ainda em planta, mostrando maquetes e apartamentos. Mais tarde, quando a Remax chegou à cidade de Salvador, Cleide foi uma das pioneiras a juntar-se ao projeto. “No Brasil, as imobiliárias tratam-nos com um tapete vermelho porque precisam de nós. Somos independentes”, recorda sobre a dinâmica do mercado do outro lado do Atlântico.
Foi esta ligação à Remax que serviu de “âncora” para a sua mudança de vida. Através dos contatos com colegas da Europa, principalmente de Évora, decidiu viajar para Portugal há cerca de oito anos e a paixão pela cidade foi imediata. “Quando vi estes campos do Alentejo, meu Deus do céu, quero tudo isto, pensei. Essa paz. O Brasil é maravilhoso, mas não temos segurança”, confessa. A tranquilidade de poder andar com o telemóvel na rua sem medo fê-la perceber que era ali que queria ficar.
Os filhos apoiaram-na, um trabalha em Angola, outro vive em Salvador, e Cleide partilha agora a casa em Portugal com o neto Antony, o seu “amigo e parceiro”. A adaptação foi facilitada pelas suas raízes, já que descende da família Queiroz e cresceu numa vila de portugueses.
Apesar do encanto pela cidade alentejana, os primeiros anos de trabalho não foram fáceis. Durante cinco anos e sem experiência anterior no ramo da restauração, trabalhou num restaurante de comida portuguesa no centro histórico, dentro das muralhas. O ritmo era alucinante. “Era só eu e o rapaz da sala. Quando os pedidos saíam, corria para o ajudar”, relembra.
A Caseirinha nasce, assim, como o oposto dessa confusão. Localizada num bairro sossegado, como é o Bairro do Bacelo, o restaurante é o reflexo da personalidade perfecionista e exigente de Cleide. “Sou chata. Gosto das coisas todas muito organizadas”, afirma com orgulho, enquanto nos mostra a sua cozinha imaculada. O espaço interior, onde fez questão de manter um painel de fotos de outros tempos na parede para preservar a “história do Alentejo”, conta com uma decoração acolhedora. No exterior, existe uma área ampla que aguarda a criação de uma esplanada. Neste momento, conta com a ajuda de duas pessoas, uma na sala e outra na cozinha.
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Na carta, o objetivo foi ter um menu bem pensado, para não falhar com nenhum cliente. A gastronomia da Caseirinha é uma viagem entre Portugal e o Brasil. Nas carnes, destacam-se os medalhões de vitela à caseirinha com batata portuguesa, alho laminado e farofa de bacon (16€), o bife de vitela angus na chapa (15€), e a carne de sol com puré de mandioca ou mandioca frita (14,50€).
Há ainda clássicos portugueses, como a carne de alguidar com migas (12€) e o bacalhau à Brás (12€), além de opções como strogonoff de frango (11€) ou filetes de polvo panados com salada (16€) e os panados da Cleide.
Aos dias de semana, o restaurante oferece um prato do dia por cerca de 12,5€, onde os clientes do bairro, já fidelizados, têm direito a couvert com pão, azeitonas e manteigas de sabores, prato principal e bebida. Quem optar pelo serviço de take-away, paga um valor ainda mais reduzido, levando apenas a refeição principal.
Quando quer dar asas à criatividade, Cleide prepara massas frescas coloridas, como uma de espinafres que serviu recentemente com cogumelos salteados em alho e manteiga, coberta de queijo ou aventura-se noutras paixões na cozinha, como as panquecas de carne e o nhoque. “Experimento tudo antes. Digo logo: olha o sal, vê se está crocante. Não sou modesta nisso, a minha comida é muito boa”, garante.
Apesar da oferta tradicional, o que tem surpreendido a proprietária é a procura dos eborenses por iguarias brasileiras. “Todos pedem comida brasileira e não são os brasileiros, são os portugueses”, exclama. Nas sobremesas, as estrelas são os “bolos de pote” e os brigadeiros, com sabores que variam entre o quindim, o coco queimado, o floresta begra e o “Romeu e Julieta”, uma combinação clássica de queijo com goiabada.
Toda esta confeção é facilitada pela evolução do mercado português. Cleide recorda que, quando chegou há oito anos, era quase impossível encontrar os ingredientes da sua terra. Hoje, percorre os supermercados locais e encontra tudo o que precisa, desde polvilho para fazer pão de queijo, até azeite de dendê e carne seca.
Mais do que um negócio, a Caseirinha é o culminar de uma vida vivida intensamente. Viúva após 27 anos de “um casamento muito feliz”, período no qual, partilha com orgulho, partiu com o marido e fez parte da construção do recém-criado estado do Tocantins, Cleide deixou para trás a juventude mais impulsiva e abraçou a serenidade. “A única coisa que mudou da Cleide daquele tempo para a de hoje é que vejo as coisas com mais serenidade. O que aprendi na vida foi a ter mais perseverança e resiliência”. Com os filhos já encaminhados, o objetivo agora não passa por acumular riquezas, mas sim colecionar momentos.
Crente de que “do pó viemos e ao pó voltaremos”, a proprietária da Caseirinha quer apenas saborear o tempo que tem, viajar, rir muito com os netos e ser feliz ao lado de quem a rodeia. O estereótipo da reforma não se aplica a esta brasileira cheia de energia: “Não quero ficar em casa a ver televisão e muito menos a fazer croché. A minha cabeça não acompanha a minha idade”, atira com humor.
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