É na Tasquinha do Povo dos Canaviais, de Maria e José Comendinha, que ainda se encontra a verdadeira essência da gastronomia regional e as típicas receitas alentejanas a preços convidativos.
Inaugurado em 2019, o restaurante começou por enfrentar dificuldades devido à Covid-19. “Abrimos antes da pandemia e tivemos de fechar apenas dois meses depois”, recorda Maria, de 51 anos, à New in Évora. Mas o que poderia ter sido a sentença do negócio foi apenas uma pausa para uma família que trabalha na restauração há décadas. Maria cresceu entre os tachos dos pais, que mantiveram negócios no setor durante 20 anos. Foi com a mãe e as avós que aprendeu os segredos que hoje servem de base às iguarias servidas na Tasquinha do Povo dos Canaviais.
“A família do meu marido é dos Canaviais, residimos aqui e conhecíamos a área”, explica a co-proprietária, justificando que a aposta da localização do espaço, numa das freguesias mais conhecidas da cidade. A mudança de vida de Maria e José não foi apenas motivada pela vontade de abrir um negócio. José, de 55 anos, era motorista, até que o diagnóstico de Doença de Crohn – uma patologia inflamatória intestinal crónica – exigiu uma mudança radical de hábitos e ritmos na rotina diária.
“Mudei por ele e ele mudou por causa da saúde. Precisava de ter outros hábitos de alimentação para evitar as crises”, confessa Maria, que ainda refere a importância de abrir a Tasquinha para não só conseguir o sustento sem as deslocações longas que o antigo emprego de José exigia, mas para manter o foco no bem-estar familiar, já que, na altura, o filho de ambos tinha apenas oito anos.
As iguarias da ementa
Na Tasquinha do Povo, como em qualquer restaurante no Alentejo, o calendário não se rege pelos dias da semana, mas pelos pratos servidos. Às quartas-feiras, o rei da casa é o famoso cozido à portuguesa (13€), mas é à sexta-feira que, durante os meses rigorosos de inverno, a cozinha ganha uma protagonista diferente com a rechina (12€).
Para quem está menos familiarizado com a terminologia gastronómica, Maria explica o que é este prato. “É feita com fígado e coração de porco, refogada com temperos e depois leva o sangue”. Ao contrário da cabidela, feita com arroz, a rechina é servida com sopas de pão e acompanhada com laranja. “É um prato para quem gosta, muito típico do Alentejo. E posso dizer que hoje vendi tudo, duas panelas grandes”, orgulha-se.
Outro ex-libris da casa são as iscas (9€), cujo segredo está na paciência com que se cozinha. “Não gosto de iscas temperadas na hora. Têm de ser temperadas de manhã para, à hora do almoço, já terem absorvido todo o sabor”. Maria faz questão de manter os métodos dos avós, ajustando as quantidades a olho porque já não precisa de receitas escritas.
Outro dos diferenciais são as famosas migas alentejanas, que aqui são servidas da forma tradicional – com carne do alguidar e que podem levar coentros -, mas também noutras variantes, como as migas de couve-flor, de bróculos, e ainda – apesar de sazonais – as de espargos selvagens. A clientela da Tasquinha é composta maioritariamente por “pessoal de trabalho”, gente que chega com fome e pouco tempo e que se rendem a outras especialidades da casa, como as bifanas (3,40€) e sandes de carne assada (3,40€).
Curiosamente, apesar de ser mestre dos pratos de carne, o gosto pessoal de Maria inclina-se para o que vem do mar. Quando questionada sobre o que recomendaria, não hesita ao falar do choco frito (13€) – servido com batata frita – ou do bacalhau frito à casa (15€), com molho de cebolada.
Comer bem a preços acessíveis
No menu da Tasquinha ainda pode encontrar chispe assado (9€) e pernil sem osso, assado no forno, e servido fatiado com salada e batata frita. Apesar da diversidade de pratos, o casal faz um esforço para manter o menu acessível. “Tentamos manter os preços para que as pessoas consigam vir cá”, refere Maria, apontando janeiro e setembro como os meses mais críticos para o negócio, que não vive apenas de quem se senta à mesa.
O hábito do take-away também é comum neste restaurante. “As pessoas estão muito habituadas a vir buscar a comidinha feita para poderem saborear em casa”, conta. Entre o cozido, a feijoada, as moelas e os bifes com cogumelos (9,50€), estes últimos que fazem sucesso entre os mais novos.
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