O centro histórico de Évora está cada vez mais preenchido com propostas desenhadas para o turismo internacional. Embora a evolução da cidade seja um passo natural, Ana Cavaco, de 41 anos, começou a sentir um vazio no que toca à gastronomia que remete diretamente para a mesa das avós. Foi para colmatar esta lacuna, e devolver a “comida de conforto” aos eborenses, que o Dom Gosto ganhou uma nova vida.
No passado dia 15 de junho, o projeto deu um salto e mudou-se para um espaço maior, capaz de albergar uma cozinha completa e, consequentemente, uma oferta de almoços que promete deixar qualquer cliente satisfeito. À frente do negócio está Ana Cavaco, de 41 anos, e o companheiro, João.
Mas a história do Dom Gosto não começou com o objetivo de criar um império na restauração. “Não queríamos ter isto, não era a minha área, a minha família é que está ligada à hotelaria”, confessa Ana. O impulso original surgiu de um ato de cuidado familiar. A mãe de João, atualmente com 60 anos, vivia no Torrão, onde trabalhou durante muitos anos numa pastelaria. Sentindo que a sogra já não se encontrava feliz no seu local de trabalho, o casal decidiu trazê-la para Évora.
“A vida toda viveu numa localidade mais pequena e veio para uma cidade grande. Proporcionou-se aquele negócio perto da minha loja e avançámos”, recorda Ana. O primeiro espaço era pequeno, sem capacidade para ter uma cozinha, mas serviu de rampa de lançamento. Ali, as tostas e as baguetes ganharam fama e agora, passado um ano, o sucesso e a vontade de ir mais além exigiram a mudança para as novas instalações.
Enquanto João, cozinheiro de profissão, assume a vertente da gestão e dos sabores, Ana dedica-se ao contacto com os clientes. “Adoro servir pessoas, que sintam aquele conforto que, às vezes, já não conseguimos encontrar nos sítios. Quero que se sintam em casa”, sublinha.
Para garantir que a comida tem o verdadeiro sabor caseiro, a equipa conta com um reforço de peso na cozinha: Maria. A sua entrada no projeto parece ter sido obra do destino e está ligada a uma aventura antiga de Ana Cavaco. “Há muitos anos, fui para a Suíça. No dia em que lá chegámos, a pessoa que nos ia receber fechou-nos a porta e íamos ficar na rua. A Maria, mãe das minhas melhores amigas, vivia lá e foi a nossa estrelinha. Abriu-nos as portas de casa”, relata. Anos mais tarde, com o regresso de Maria a Portugal, os caminhos voltaram a cruzar-se, desta vez à volta dos tachos.
Se o objetivo é começar o dia da melhor forma, o Dom Gosto não desilude. O espaço afastou-se da pastelaria tradicional para se focar em produtos como os croissants, por exemplo, que são um dos grandes ex-líbris da casa. “Levámos meses a tostar croissants até chegarmos ao que, para nós, era considerado bom”, revela Ana.

A carta oferece opções para todos os gostos. Os fãs de doces podem deliciar-se com croissants recheados com Nutella, KitKat, Biscoff, maçã e canela ou doce de ovos (a partir de 3,5€). Para quem prefere começar o dia com propostas salgadas, há opções com fiambre e queijo ou queijo fresco e óregãos (4,50€).
A grande aposta das manhãs recai nos menus de pequeno-almoço e brunch. O “Bom dia, sem pressas” (13,5€) é um banquete matinal que inclui um croissant, duas panquecas, dois sumos do dia, doce caseiro, uma taça bowl – com iogurte natural, granola e banana – e dois cafés. Para uma refeição mais rápida, mas igualmente reconfortante, o “Menu Energia” (6,9€) propõe uma torrada com ovo mexido e sumo do dia. As panquecas de banana, mel e iogurte natural (5,5€) e os waffles com diversos toppings (5€) completam a oferta matinal, juntamente com bolos à fatia, como o de pistácio (2,1€), e uma seleção de pão de fermentação natural.
Ao almoço, a estrela maior é o prato do dia, por 9€. A ementa conta com opções que variam diariamente e onde pode encontrar desde jardineira a cação frito com arroz de feijão. “Quem vem aqui são pessoas que trabalham por perto, os locais. E está a correr super bem”, garante a responsável. Além do prato do dia, há opções fixas como o bitoque de frango (8,5€) e as famosas tostas. A de cachaço (6,8€ inteira, 4,50€ a sandes) é, nas palavras da proprietária, “uma loucura”. Há ainda alternativas como a tosta de frango (5,5€), a clássica mista (4,5€) ou a bruschetta de salmão fumado com sumo do dia (12€).
Nas prateleiras do espaço, é ainda possível encontrar uma montra de produtos artesanais, desde mel (6,2€ o frasco), licor de poejo, compotas (5,5€) até aos tradicionais talegos. Quem repara no logótipo do Dom Gosto, depara-se com uma imagem à primeira vista, inusitada: o rosto de um cão sobre um croissant. A história por detrás desta imagem partiu do filho do casal, Simão, que quis eternizar a cadela da família, Luna.
“É uma bulldog francesa com 13 anos. Queríamos algo familiar e que tivesse a ver connosco. Pode parecer um pouco fora de contexto, mas faz sentido para nós”, confessa. “O Simão queria a Luna, que é muito especial, e quisemos deixar a nossa marca. Juntámos a imagem dela aos croissants, que é algo que vendemos muito. O logo ficou muito marcante e não se esquece.”
Apesar do ambiente acolhedor e extrovertido que Ana faz questão de manter com todos os clientes, existia um detalhe curioso sobre o Dom Gosto, que passou despercebido durante muito tempo. A proprietária manteve em absoluto sigilo que o negócio lhe pertencia. “Nunca tinha dito a ninguém que o Dom Gosto era meu”, confessa, entre risos. “Na minha outra loja, às vezes perguntavam-me onde havia um cafezinho e dizia sempre que era ali em cima. Sou muito extrovertida, mas nestas coisas sou tímida. Gosto de estar no silêncio.”
A mudança para o novo espaço obrigou Ana a desvendar o segredo, dissipando os rumores de que iria abandonar o outro negócio na área da maquilhagem. “Só se um dia as mãos me pararem de mexer”, garante.
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