Há talentos que não se aprendem nas escolas de alta cozinha, mas sim na escola da vida, ao calor dos tachos da família. Elsa Brito, de 60 anos, é a prova viva de que a verdadeira gastronomia alentejana não precisa de invenções, mas de respeito pelas raízes.
É com esta ideia que a cozinheira acaba de abraçar outro grande desafio dos seus últimos anos: assumir a gerência do restaurante Medieval, um espaço bem localizado em Évora, a escassos dois minutos a pé da Praça do Giraldo e bem perto do Mercado Municipal.
Para os eborenses, e para os milhares de turistas que visitam a cidade, o nome de Elsa Brito dispensa apresentações. A sua história com a restauração começou há cerca de três décadas. “Estive numa pastelaria, no Bacelo, durante 12 anos. Não cozinhava bem como restaurante, mas fazia muitos petiscos. Tinha muita gente”, recorda à New in Évora.
Seguiram-se mais quatro anos na Rua do Viveiro, já com um formato de restaurante. A crise económica de 2008 e 2009 forçou-a a fechar portas em 2011 e a emigrar para a Suíça, onde trabalhou durante quatro anos.
Quando regressou a Portugal, em 2016, decidiu abrir o Restaurante Pôla. O que poucos sabem é que o sucesso deste espaço da cidade não foi imediato. Durante os primeiros seis meses, teve altos e baixos. A verdadeira mudança aconteceu num Dia de Reis, a 6 de janeiro, quando a Junta de Freguesia a desafiou a receber o cantar das Janeiras.
Elsa não hesitou e preparou os seus melhores petiscos para as cerca de 80 pessoas que ali se juntaram. Serviu pezinhos, rechina, feijoada, torresmos e pataniscas. “As pessoas gostaram muito do que servi. A publicidade para a minha casa foi as Janeiras que fiz naquele dia. No sábado seguinte, tive 70 pessoas ao almoço sem marcação, sem sequer saberem. A partir daí foi sempre a subir.”
Apesar do sucesso que se seguiu, com clientes a chegarem de todo o País e estrangeiros a marcarem viagem ano após ano só para provarem a sua comida, Elsa mantém a humildade. Aprendeu a cozinhar com a mãe e casou cedo, aos 15 anos, o que a obrigou a apurar a técnica desde muito nova.
“Não sou chefe, não. Sou uma cozinheira curiosa, uma pessoa que gosta do que faz. E faço com gosto. É uma cozinha muito simples, alentejana típica, mas que as pessoas gostam muito”, confessa.
A modéstia esconde um talento que leva os clientes a chamá-la à sala repetidas vezes. O grande fenómeno da sua ementa são as migas de espargos. “Há muita gente que me chama e pergunta: ‘onde é que você aprendeu a fazer estas migas? Como é que faz?‘. Faço as coisas normalmente, mas tem um segredo: é o amor que meto no que estou a fazer, porque gosto de trabalhar nisto.”
Adeus Pôla, olá Medieval
No novo Medieval, a carta vai manter-se fiel ao que a caracteriza. Além das famosas migas, não faltará a sopa de cação, a tomatada, os pezinhos de coentrada, a açorda e a tradicional carne de porco à alentejana. Mas as especialidades não se ficam por aqui. Há quem garanta que o seu choco frito é superior ao de Setúbal, e o bacalhau frito e os “miminhos” são pratos com saída garantida.
Como gosta da verdadeira comida de conforto, a “comida de tacho”, Elsa serve todos os dias um prato do dia diferente, onde conta com opções como o cozido, a sopa da panela, as ervilhas com ovos, o ensopado de borrego e o borrego assado.
A política da casa assenta na qualidade e em doses generosas. “Os meus preços são justos para a qualidade que sirvo, porque não olho ao preço do que compro. Se tiver que comprar uns secretos a 23€, não os compro a 10. Porque sei que os de 23 não me voltam para trás, não são duros, não são pastilha elástica”, garante.
E no que toca a quantidades, a regra é que uma dose serve razoavelmente duas pessoas e que duas doses dão para três ou até quatro comerem. Já uma meia dose satisfaz plenamente um cliente com apetite. Mesmo com a inflação e a mudança de espaço, os preços do espaço anterior mantiveram-se, sofrendo apenas ligeiros ajustes de cêntimos em alguns casos pontuais.
O adeus ao Pôla, onde trabalhava das oito da manhã à meia-noite todos os dias, não foi desejado, contudo o Medieval surge como o cenário perfeito para a nova fase da sua vida. O espaço é maior e oferece melhores condições do que as antigas instalações.
Atualmente, o restaurante tem capacidade para 90 pessoas, divididas por três salas interiores. A principal diferença de conceito é a ausência de esplanada e balcão, o que significa que, para já, o típico serviço de petiscos e caracóis a meio da tarde não se irá realizar. O foco está nos almoços e jantares.
Ainda assim, o arranque neste novo desafio não se fez sem percalços. Apesar da apreensão natural de quem muda de casa ao fim de tantos anos, os primeiros três dias de porta aberta foram um verdadeiro sucesso. “95 por cento das pessoas que cá estiveram sábado, domingo e segunda-feira foram os meus clientes do Pôla. Também tive pessoas de fora e já recebi estrangeiros”, conta, visivelmente orgulhosa.
No entanto, o motor da hotte – um exaustor – acabou por avariar repentinamente, obrigando a um encerramento forçado de três dias durante esta semana, para reparações. Totalmente resolvida a situação, Elsa Brito já está de volta aos tachos do Medieval, pronta para receber quem sempre a acompanhou e para conquistar os novos clientes que andarem pelas ruas do centro histórico de Évora. Aos 60 anos, a palavra “reforma” não lhe passa pela cabeça. O motor que a move é a paixão pela cozinha e o contacto com o público.
Quando lhe perguntam como imagina o Medieval nos próximos tempos, a resposta não podia ser mais simples: “Cheio e com a mesma pontuação e os mesmos elogios que tive no Pôla. Desde que tenha trabalho, já sou feliz.”
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