O Cesto Artesanato, situado no coração de Évora, é uma loja familiar que é muito mais do que aqueles habituais espaços comerciais de recordações nas zonas turísticas das cidades. Aberto há mais de quatro décadas, defende o que de melhor se faz com as mãos em Portugal,
Patrícia Figueiredo, de 50 anos, e a sua mãe, Antónia Casas Novas, de 79, são duas das guardiãs deste legado que se modernizou nos últimos anos, sem nunca perder o objetivo de valorizar o artesanato tradicional.
“Tudo o que temos aqui é português, quase na totalidade feito à mão, com processos digníssimos e ancestrais”, começa por explicar Patrícia.
Tudo começou em 1983, quando Antónia fundou a primeira loja, então num espaço pequeno “lá em baixo, no meio da rua” – a Rua Cinco de Outubro – com o nome original “O Cesto”, um espaço que surgiu da necessidade de vergas e materiais de cestaria em Évora.
Com um espírito empreendedor invulgar para a época, Antónia decidiu trazer essa tradição para a rua principal, focando-se inicialmente em cestaria. “Havia muita falta de vergas e materiais destes em Évora”, contam.
Durante mais de 30 anos, a loja original foi o local de exposição do trabalho de vários artesãos que, muitas vezes, não tinham voz, nem montra para os seus produtos. Com o tempo, o negócio cresceu e agregou um segundo espaço, maior e mais imponente, no topo da rua.
Contudo, a pandemia de Covid-19 trouxe mudanças nesta logística, tendo a loja original fechado e a família concentrado toda a operação no espaço atual, que Patrícia considera “suficientemente grande para aquilo que desenvolvemos aqui”.
Chegada da modernização
Foi apenas em 2019 que Patrícia, designer de interiores e a sua irmã, psicóloga, ficaram na gerência e abraçaram o desafio de ajudar a mãe a modernizar a empresa. “A ideia é levar o artesanato para o resto do mundo”, explica Patrícia, destacando a criação de redes sociais, um site mais robusto e a capacidade de vender para qualquer lugar do planeta.
Mas, apesar da modernização tecnológica, a essência do projeto permanece intacta e Antónia continua a ser a “base de dados” humana da empresa. É ela quem conhece os mestres, que sabe de onde vêm as peças e mantém na memória décadas de parcerias. “A minha mãe é que é a dona do espaço. A cabeça de tudo isto está nela”, afirma Patrícia com orgulho.
Um inventário único
Quando se entra n’O Cesto Artesanato, onde somos recebidos por um enorme Galo de Barcelos à porta, fazemos uma viagem pelo trabalho de cerca de 200 artesãos. Trabalhos esses que passam por um critério de seleção, já que apenas entram neste espaço peças que façam sentido para a missão de apoiar o artesanato português genuíno, feito com matérias-primas nacionais.
Um dos ícones da loja é a cadeira tradicional alentejana, pintada, empalhada e feita à mão, uma peça que é uma memória coletiva da casa das avós de qualquer português. Patrícia acredita que, devido à escassez de quem as saiba fabricar – atualmente resiste apenas um único carpinteiro em todo o País que ainda as faz e que fornece os artesãos que as pintam -, este objeto tornar-se-á, no futuro, um dos mais valiosos do artesanato.
Outro dos tesouros que brilha nas prateleiras é a olaria de Nisa, cujas peças que estão em vias de extinção. Destacam-se por serem decoradas com minúsculas pedras brancas de quartzo da região, colocadas uma a uma para formar desenhos. “As pessoas podem pensar que é pintado, mas não é. São colocadas pedra a pedra”, esclarece Patrícia sobre a obra de mestres como a Dona Graça.
A sustentabilidade também é uma das bandeiras da loja, algo que é visível nas cestas de junco que antigamente eram usadas para ir para o campo e que hoje são acessórios de moda resistentes, ecológicos e cujo processo de fabrico é árduo. Isto deve-se ao facto do junco ser trabalhado num tear e costurado de forma tão rígida que chega a ferir as mãos das artesãs. Algo que afeta a disponibilidade destes artigos.
“Às vezes não é possível produzir porque a pessoa está com as mãos feridas”, refere Patrícia ao mostrar-nos os detalhes da peça semelhante à que a própria adquiriu para ir às compras no supermercado, evitando assim os sacos de plástico.
Um dos segredos d’O Cesto Artesanato é que se soube diversificar, sem perder a qualidade. Atualmente conta com uma secção alimentar e de bem-estar, onde os visitantes encontram licores de bolota, azeites e vinagre de figo da Índia.
Além disso, é possível encontrar na loja um produto muito procurado pelos locais – os pratos de sericaia – bem como as assadeiras de chouriço, tabuleiros para o borrego, peças da Bordallo Pinheiro, sabonetes e cremes de mãos de base natural, como os de azeite, com propriedades benéficas para a pele.
Para quem procura apenas uma recordação da região, pode optar por serigrafias e postais do artista Eduardo Botelho.
Uma das iniciativas mais recentes é a “Tradição Viva”, que vai acontecer uma vez por mês, quando um artesão se instala na loja para mostrar o seu “saber-fazer” em tempo real. Não se trata de um workshop, mas de uma experiência de contacto direto com o processo criativo, de modo a permitir que o público valorize as horas de trabalho, as cozeduras e as pinturas que justificam o valor de cada peça.
A iniciativa começou no passado mês de fevereiro com O Senhor Almofada e pretende regressar, este mês de março, com uma artesã dedicada à cerâmica e olaria.
Uma equipa exclusiva de mulheres
A propósito do Dia Internacional da Mulher, vale notar que a equipa d’O Cesto Artesanato é composta exclusivamente por mulheres. Patrícia e Antónia recordam que, embora não tenha sido algo propositado, as mulheres sempre demonstraram uma ligação mais forte ao artesanato.
Além das duas, trabalham na empresa Helena, que assegura o escritório e os stocks, enquanto a irmã de Patrícia gere os recursos humanos e Dora e Mariángeles o atendimento ao público.
Durante a entrevista, a equipa recorda que trabalhar no centro turístico de Évora traz também momentos de humor e, entre as histórias mais caricatas, destaca-se a de turistas que, ao verem as malas de cortiça, perguntam se “as rolhas são o fruto das árvores. Acham que as rolhas nascem das árvores“, contam entre risos, sublinhando a importância pedagógica que a loja acaba por ter.
Para o futuro, o caminho d’O Cesto Artesanato faz-se com os olhos no site, que vai ser melhorado para responder ao elevado volume de visitas, e no lançamento de objetos de design próprio. Patrícia, com o seu olhar de designer, já trabalha com artesãos para criar peças onde poderá aplicar a sua pintura.
Acima de tudo, a marca mantém-se como um negócio sustentável, que serve de ponte entre os artesãos que podem estar recolhidos nas suas oficinas, a produzir, e os clientes interessados nas matérias-primas portuguesas.
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