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Dos 6 hectares em Évora para os restaurantes Michelin: João Tique quer fazer arte com as uvas

João Tique produz em pequena escala e aposta na exclusividade, sempre com uvas colhidas na herdade da Casa do Governador.

Para João Tique, a ideia de que só se fazem grandes vinhos em grandes propriedades, com muitos meios e vinhas em hectares sem fim, não passa de um mito. Aos 62 anos, o produtor alentejano prova precisamente o contrário, com uma abordagem onde o vinho é tratado como uma forma de expressão, mais próxima da arte do que da indústria. Produz cerca de 15 mil garrafas por ano, um número reduzido face ao cenário nacional.

A partir da zona norte de Évora, mais concretamente nos seis hectares das vinhas da Casa do Governador, este viticultor alentejano assume como missão redefinir o que significa criar vinhos de autor. É esse foco na exclusividade e no trabalho manual que abriu o caminho do sucesso, que é como quem diz, ver os seus vinhos presentes nas listas de mais de quatro dezenas de restaurantes de alta gastronomia e espaços distinguidos pelo Guia Michelin e Boa Cama Boa Mesa. Para o futuro, o plano passa por manter-se como um dos produtores de menor volume na região, com um teto máximo de 50 mil garrafas.

A história de João Tique com a vinha começou na Azaruja, uma aldeia vizinha de Évora. “Quando eu era miúdo, toda a gente tinha a sua horta, toda a gente matava o seu porco, era uma tradição”, recorda. Na altura, ter um galinheiro ou fazer a própria “frasqueira” de vinho, comprando uvas aos lavradores locais, era algo comum. Foi o pai e, mais tarde, os “velhotes da terra” que o ensinaram a fazer vinho.

Aos 16 ou 17 anos mudou-se para Évora, onde conheceu o professor Francisco Colaço do Rosário, nome ligado à criação do famoso Pêra Manca, primeiro professor de enologia da Universidade de Évora e conhecido como o “pai dos vinhos alentejanos”, de cujo filho era colega e amigo.

Apesar deste interesse, a vida profissional levou-o primeiro para o empreendedorismo no setor da cortiça. Só mais tarde, perante uma crise nesse mercado, decidiu mudar de rumo e dedicar-se ao vinho. Há cerca de 20 anos, ainda não como produtor, fundou a Top Wines para exportação para o mercado asiático, reunindo projetos de cerca de 20 produtores portugueses, como a Comenda Grande, Paulo Laureano e Ravasqueira, e enviando contentores para Macau, Hong Kong, Tóquio, Singapura e Xangai.

Com as mudanças políticas na China, sob a liderança de Xi Jinping, e com a vontade crescente de criar algo próprio, regressou às raízes alentejanas. O regresso coincidiu com a pandemia de covid-19, o que o obrigou a adaptar-se inicialmente ao online, antes de conseguir entrar na restauração de topo.

O vinho como forma de arte

A filosofia de João Tique vai deliberadamente contra a corrente da indústria vitivinícola moderna. Depois de ter desistido a meio do curso de enologia, decisão que diz ter sido acertada, percebeu que o ensino tende a formatar os profissionais para seguirem o mesmo caminho. Para o viticultor, o setor baseia-se na produção em massa e numa segurança excessiva, com recurso a químicos e processos preventivos.

Para João Tique, isso afasta o vinho daquilo que considera essencial. “Há os famosos papa reformas, há os camiões e há Ferraris e Mercedes. Um Aston Martin é arte, não é indústria, são feitos manualmente”, diz.

Nas suas vinhas, não usa herbicidas. As ervas são cortadas e deixadas no solo para criar ensombramento e reter a humidade. “O verdadeiro teste é meter a enxada ao chão e ver se saem minhocas”, explica. Na adega, evita tratamentos fitossanitários preventivos, optando apenas por intervenções pontuais quando surgem problemas.

Embora siga princípios naturais, rejeita rótulos como o de vinho biológico. Defende que, no passado, essa distinção não existia e critica o uso de cobre e enxofre, que, na sua opinião, acaba por influenciar o sabor do vinho. Também não comercializa os seus vinhos em grandes superfícies, por considerar que os supermercados pressionam margens e comprometem a qualidade, favorecendo o volume em detrimento da identidade.

Inspirado pela herança romana de Évora, João Tique batizou os vinhos com nomes em latim, pensados para refletir o perfil de cada um. Todos seguem a mesma linha: sem madeira, sem correções artificiais e com níveis muito baixos de sulfitos, entre 54 e 60 mg/L.

Na gama Suavis, aposta em vinhos mais consensuais, fáceis e equilibrados. “Há muitas pessoas que dizem ‘eu não gosto de vinho, mas deste gosto’”, conta. Destacam-se o Suavis Alicante Bouschet 2023 e o Suavis Syrah 2023, ambos limitados a 2.666 garrafas.

Já o Bellus foi pensado para marcar quem o prova. Inclui referências como o Bellus Grande Escolha Alicante Bouschet 2023, limitado a 1.466 garrafas, e o Bellus Doc Alentejo Branco Curtimenta 2024. Um dos destaques é o Bellus Petit Verdot Rosé 2024, com 1.120 garrafas, presença em restaurantes Michelin como o Ocean, no Algarve.

No topo está a gama Cultus, que recupera práticas antigas. Um exemplo foi uma edição de 920 garrafas a partir de uma vinha velha com 18 castas misturadas. Mais recente é o Cultus Petit Verdot Grande Reserva 2021, limitado a 250 garrafas, com estágio prolongado em barrica.

Com presença em cerca de 37 a 40 espaços Michelin e do Guia Boa Cama Boa Mesa, João Tique não tem pressa em aumentar a produção. Um quilo das suas uvas tem um custo de produção de cerca de 2 euros, muito acima dos 30 cêntimos de uma adega cooperativa.

O foco está nos restaurantes de fine dining e em quem procura experiências diferenciadas. Apesar da experiência na exportação, só pondera voltar a mercados internacionais para espaços de topo.

Atualmente, produz cerca de 15 mil garrafas por ano e aponta às 50 mil como limite máximo, mantendo um perfil exclusivo. “Fazer vinhos melhores. Melhores, melhores, melhores. Não tenho planos de crescer”, conclui.

Carregue na galeria e conheça a arte de João Tique.

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