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Tem 100 anos, sobreviveu à Internet e é a única chapelaria a sul do Tejo

Quica e Paula dão a cara pela loja que abriu como uma ourivesaria, mas que se transformou num dos espaços comerciais mais icónicos da cidade.

Se passear pela Rua da República, uma das artérias mais movimentadas de Évora, é impossível ficar indiferente a uma montra que parece ter parado no tempo, mas que continua a ditar as tendências. Falamos d’A Chapelaria, um espaço que celebra o seu centenário nesta localização na próxima sexta-feira, dia 5 de junho.

A sul do rio Tejo, esta é a única loja do género em toda a região. Atrás do balcão, a receber clientes e curiosos com a mesma dedicação de sempre, está Maria Angélica Rocha, de 68 anos, que, embora já se encontre reformada, continua a gerir os destinos deste negócio centenário.

A história do espaço remonta a 5 de junho de 1926, data em que o estabelecimento foi oficialmente inaugurado neste local. O único registo histórico, curiosamente preservado através de um recorte de jornal da época cedido pelo neto de um dos antigos proprietários, descreve a abertura com pompa e circunstância.

A notícia original anunciava orgulhosamente que “Évora progride comercialmente” e que o novo estabelecimento abria “com todos os requintes de modernismo”. Antes de vender chapéus, o número 7 da Rua da República albergava a antiga Ourivesaria Patrão, tendo sido nesse espaço que Hilário de Almeida, já então um experiente comerciante da cidade no ramo da chapelaria, se associou a António Augusto da Costa e ao seu filho, João Coelho da Costa, para fundar o negócio.

Hilário manteve a sociedade até 1935, ano em que assumiu o negócio sozinho. Mais tarde, a loja passou para as mãos da sua nora, antes de entrar definitivamente na família de Maria Angélica.

À direita é possível ler a reportagem da época.

No entanto, a vida de Maria Angélica Rocha nem sempre foi passada entre chapéus de feltro e boinas. Formada como tradutora de intérpretes no ISLA, dedicou grande parte da carreira a traduções técnicas de catálogos industriais. Contudo, o comércio corria-lhe nas veias. “Nasci atrás de um balcão”, confessa.

Os pais tinham uma loja na Azaruja e o pai foi um verdadeiro pioneiro no Alentejo, ao introduzir as confeções numa época em que as pessoas ainda resistiam à ideia de não mandar fazer a roupa à medida. Com uma visão empreendedora, o pai de Maria expandiu o negócio das Galerias Teófilo por todo o País, abrindo lojas no Montijo, Portalegre, Faro, Setúbal e Estremoz.

Foi precisamente o pai de Maria Angélica quem comprou A Chapelaria à nora do antigo proprietário com o objetivo de que a loja funcionasse como um complemento à loja de confeções da família. Com o falecimento do patriarca, Maria e a irmã decidiram manter o negócio vivo, ficando Maria com a gestão do espaço. Ao seu lado tem Paula, o seu braço-direito, que trabalha no espaço desde 1993, somando já 33 anos de dedicação à chapelaria.

Hoje, o espaço é muito mais do que uma loja de chapéus. O catálogo inclui guarda-chuvas, sacos de compras, bolsas e até chapéus de colégio com todas as cores representativas das escolas de Évora. Numa altura em que as temperaturas disparam no verão, a proteção é essencial e, por essa razão, o espaço adaptou-se e oferece hoje chapéus e guarda-chuvas com proteção ultravioleta. “Em princípio, só não compra quem não quiser, porque tudo faz falta”, nota Maria.

Para quem entra, há opções para todas as carteiras e ocasiões. O artigo mais barato é o clássico chapéu de palha nacional, outrora usado nos trabalhos do campo, que custa 10€. No extremo oposto, a peça mais luxuosa da loja é um chapéu importado da Alemanha, avaliado em 299,50€. Fabricado com pelo de coelho, já tendo existido mesmo versões em pelo de castor, destaca-se pelo toque e caimento.

Outro dos grandes sucessos de vendas são os famosos “panamás, autênticos e tecidos no Equador”, explica a proprietária. A palha é minuciosamente entrançada na América do Sul e o material é depois exportado para ser cozido e moldado na Europa.

O espaço comercializa ainda barretes de campino, chapéus de pescador e boinas. Já os leques usam materiais portugueses, mas são montados na China, uma vez que a mão de obra asiática permite manter os custos competitivos. Para o público mais jovem, a febre das séries de televisão também se faz sentir no balcão. Os bonés estilo “Peaky Blinders” tornaram-se num fenómeno de vendas entre as novas gerações. Há também uma forte procura por chapéus de cerimónia e toucados para casamentos.

Apesar do peso histórico da loja, o comércio tradicional enfrenta obstáculos. Maria garante que o mercado está “muito parado”, uma quebra que a responsável atribui ao impacto das compras online e à proliferação de lojas de comércio chinês, que praticam preços com os quais é impossível competir.

O absurdo, segundo a proprietária, é que muitas pessoas preferem encomendar pela internet, perdendo a oportunidade de experimentar a peça e ver o seu caimento ao espelho. Para combater esta realidade, a loja aposta num atendimento personalizado, com grande parte da oferta a ser de origem nacional, e com montras renovadas semanalmente.

Para celebrar os 100 anos de porta aberta ao público, as ideias já estão na mesa. Maria Angélica e Paula idealizam uma celebração com um bolo de aniversário, sessões fotográficas com clientes a usar cartolas e chapéus de coco – que ainda vendem pontualmente para o teatro – e, quem sabe, um “desconto centenário” para premiar a fidelidade de quem não deixa morrer este negócio em Évora.

Carregue na galeria e veja mais fotos do espaço.

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