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Tem 80 anos, começou a trabalhar descalço e é dono da barbearia mais antiga de Évora

Corta cabelos desde os 12 anos, sobreviveu às mudanças da profissão e hoje recebe clientes de todo o mundo no centro histórico.

Aos 80 anos, Manuel Perdigão movimenta a tesoura com a mesma destreza há 68 anos. Tudo começou quando tinha 12 anos, com uma cadeira de madeira e os pés descalços. Nasceu em 1946 e hoje guarda um legado quase extinto no nosso País, assim como as histórias e desabafos de inúmeros clientes.

As suas raízes estão na localidade de Redondo, onde abriu o seu primeiro espaço oficial, em 1963. “Cresci sem pai, portanto não tinha quem me ajudasse. Fui pedir a um mestre para me ensinar”, recorda à New in Évora. O início, marcado pela pobreza, fê-lo um aprendiz numa época em que o conceito de vaidade masculina era um luxo. “Os clientes também chegavam de pé descalço para vir cortar o cabelo. Não ganhava nada no início.”

Para conseguir algum dinheiro, aos domingos, agarrava numa pequena mala e ia percorrer as tabernas da vila. Sentava os homens nos bancos de cortiça ou madeira dos tascos e era ali que lhes cortava o cabelo e fazia a barba.

A vida obrigou-o a crescer demasiado depressa. Quando tinha 16 anos, o seu mestre pôs termo à vida. De um dia para o outro, o jovem Manuel viu-se sozinho, à frente do negócio, com uma responsabilidade impensável para um adolescente. “Cheguei a fazer sábados a trabalhar até às cinco da manhã”, conta. Eram tempos difíceis, de Estado Novo e regras rígidas. O trabalho ao domingo era estritamente proibido e fiscalizado. “Fui multado umas cinco ou seis vezes pela Guarda porque, naquela altura, não se podia trabalhar. Muitas vezes estava com um cliente, tinha outro na rua a vigiar. Quando a Guarda vinha, tinha de parar tudo.”

Apesar de ter fundado o seu espaço no Redondo, a ambição falou mais alto. Manuel queria mais. Sentia que a terra natal “era um bocadinho parada” para a sua vontade de crescer. Ao observar o trabalho dos colegas em Évora, percebeu que tinha arte e técnica para se estabelecer na capital de distrito. O grande passo aconteceu em novembro de 1987.

O investimento de dois mil contos na barbearia

A chegada não foi fácil, porque arrendar o novo espaço exigiu uma ginástica financeira. “Na altura, paguei muito dinheiro pelo espaço, dois mil contos era uma fortuna. Trabalhava aqui e depois ainda ia para o Redondo, para pagar as contas porque não tinha ajuda de ninguém. Construí tudo sozinho.” Aos poucos, a barbearia evoluiu. As antigas cadeiras de ferro pesadas deram lugar a equipamento renovado. O salão levou chão novo, canalização, eletricidade, mas conseguiu manter a sua alma intacta.

E essa alma é centenária. Segundo Manuel, o seu espaço é a única barbearia com mais de 100 anos de história ininterrupta em Évora. “O primeiro dono chamava-se Sr. Martolino, que esteve cá 30 anos. Depois, trespassou ao Sr. José Barbeiro, que ficou mais 42 anos e foi a quem comprei a casa. Estou cá há quase 39 anos. Feitas as contas, dá 111 anos de porta aberta no mesmo sítio. Não existe mais nenhuma com esta idade na cidade. Existem espaços antigos em Braga ou Lisboa, mas em Évora somos os únicos.”

Muito antes de as redes sociais dominarem as atenções, eram as barbearias o verdadeiro centro de partilha de informação da sociedade. “Antigamente, o barbeiro era um local de convívio”, explica. “Ao sábado, as pessoas iam ao cinema e depois chegavam aqui às onze da noite. Vinham ler jornais como ‘O Século’, ‘A Bola’ e gostavam muito de conversar. O barbeiro era onde as pessoas desabafavam e sabíamos de muita coisa.”

O ofício era executado com ferramentas que hoje parecem saídas de um autêntico filme de época. O mestre barbeiro faz questão de mostrar os utensílios com que domou cabelos e barbas durante décadas: as antigas máquinas manuais, que exigiam um compasso perfeito das mãos para não arrancar o cabelo ao cliente, as navalhas de aço que eram afiadas na pedra com azeite ou no assentador de couro e a famosa pedra-ume usada para estancar o sangue quando a lâmina atraiçoava a pele. “Antes usava-se o mesmo para toda a gente. Hoje isso acabou, tudo é descartável, as lâminas trocam-se a cada cliente por questões de higiene. Mas a arte, essa, continua nas mãos.”

Numa era em que aparecem barbearias a cada esquina, focadas em fades, tapers e trabalhos exclusivamente a máquina, Manuel Perdigão orgulha-se de ser um mestre da tesoura e do corte clássico ou o “disfarçado”, como se dizia antigamente, antes de o termo “degradê” tomar conta do vocabulário. “Dentro do clássico, em Évora, talvez só nós é que trabalhemos a sério. Há muita gente nova que não sabe fazer isto só à tesoura. A máquina elétrica dá um despacho enorme, mas fazer uma barba de toalha quente ou um corte perfeito de tesoura não é para qualquer um.”

A paixão pela moda e pela modernidade não lhe escapa. “Faço tudo o que me pedirem, do clássico ao atual. Já trabalhei em festivais de moda e adoro a minha profissão”, garante. A prova viva dessa fusão de gerações é o seu filho, Carlos, que entrou para o negócio aos 17 anos e trabalha lado a lado com o pai diariamente. Juntos, oferecem aos clientes o melhor de dois mundos.

Manuel e o filho, Carlos.

A clientela de Manuel Perdigão é o espelho de uma vida inteira dedicada ao cuidado dos outros. Tem clientes a quem corta o cabelo há várias décadas e alguns chegam mesmo às cinco gerações da mesma família que passaram pelas suas cadeiras, muitos vindos do Redondo de propósito. “Temos clientes que fazem mais de 100 quilómetros para virem cortar o cabelo aqui.”

A localização no centro histórico de Évora, em plena Rua 5 de Outubro, traz-lhe também uma clientela global diária. Turistas de todas as nacionalidades entram fascinados pela aura mística da barbearia tradicional. “Gostam muito de cortar o cabelo connosco, até tiram fotos no final. São pessoas muito educadas e simpáticas”, relata.

Com 68 anos de carreira no currículo, a palavra “reforma” ainda não faz parte do seu vocabulário. Quando questionado sobre o futuro e se tem mais algum objetivo profissional por cumprir, o sorriso transparece na voz. “Continuo a trabalhar porque adoro a minha profissão. Uma pessoa da minha idade já não faz isto… Adorava chegar aos 70 anos de carreira”, confessa com brilho nos olhos. “Se tiver saúde, é para continuar. A gente nunca sabe o dia de amanhã, mas se houver saúde, cá estaremos.”

Carregue na galeria e veja mais fotos da barbearia de Manuel Perdigão.

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