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À noite, trabalha na urgência. De dia, tira fotografias incríveis de casamentos

O enfermeiro alentejano vive e trabalha em Évora, onde também gere o seu negócio de fotografia, entre retratos de grávidas e registos de cerimónias.

Fábio Calisto tem 39 anos e vive dividido entre dois mundos que, à primeira vista, parecem não ter ligação. Durante parte do dia, veste a farda de enfermeiro e trabalha diariamente entre a pressão da urgência hospitalar e da emergência pré-hospitalar. Quando sai do hospital, pega na máquina fotográfica para registar alguns dos dias mais felizes da vida de dezenas de famílias.

Nasceu na pequena Aldeia da Venda, no concelho do Alandroal, mas vive em Évora desde os tempos de estudante. A escolha pela saúde não surgiu exatamente como uma vocação de infância. No final do ensino secundário, sabia apenas que queria seguir uma área ligada à saúde e continuar perto de casa. Acabou por escolher Enfermagem em Évora. “Entrei sem saber bem para o que é que ia, e depois acabei por gostar e fiquei até hoje”, confessa. Hoje soma 15 anos dedicados à urgência do Hospital de Évora e ao INEM, através da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER).

Com o passar dos anos, aquilo que começou como atração pela adrenalina da emergência tornou-se um trabalho altamente exigente, tanto física como emocionalmente. E foi precisamente aí que a fotografia entrou como uma espécie de refúgio.

No entanto, a ligação de Fábio às fotografias começou muito antes de comprar a primeira câmara, já perto dos 27 ou 28 anos. A origem desta relação está ligada à morte do pai num acidente de trabalho, quando Fábio tinha apenas 18 meses de vida.

Sem memórias próprias do pai, os antigos álbuns de família transformaram-se no único lugar onde conseguia reencontrá-lo. Existe apenas uma fotografia conhecida onde aparece ao lado dele. “Para mim, a fotografia é sempre uma coisa a que dei muito valor”, conta, emocionado.

Essa consciência do peso emocional de uma imagem acompanha-o até hoje. Quando fotografa um casamento, Fábio sabe que não está apenas a criar imagens bonitas para redes sociais. Tem a noção de que está a congelar memórias que podem ganhar um valor incalculável daqui a 20 ou 30 anos.

Comprou uma máquina, frequentou um workshop de iniciação fotográfica em Évora e começou a fotografar paisagens durante viagens. Grande parte da aprendizagem foi feita sozinho, entre leituras e dezenas de vídeos no YouTube focados em edição. Só em 2018 e 2019, depois de uma colega enfermeira o desafiar a fotografar uma sessão de noivado, que sentiu o incentivo necessário para apostar mais seriamente na área.

Hoje, a vida deste enfermeiro é um exercício constante de equilíbrio entre duas realidades completamente diferentes. Nos corredores da urgência acompanha frequentemente os piores dias da vida das pessoas, entre perdas inesperadas e doentes fragilizados, mas na fotografia encontra uma faceta mais feliz, onde regista casamentos, sessões de gravidez e momentos em família.

“São duas áreas completamente distintas, em que num dos lados eu estou a assistir, se calhar, ao pior dia das pessoas e, no outro lado, estou a viver coisas bonitas”, explica.

Atualmente dedica-se sobretudo ao retrato, onde as sessões de gravidez lideram os pedidos, seguidas das sessões de família, casais e recém-nascidos em estilo documental, normalmente fotografados no próprio domicílio. Mas foram os casamentos que acabaram por o conquistar definitivamente. Em 2020 começou a explorar estes eventos através de uma parceria com um amigo, ligação profissional que durou até 2024.

O volume de trabalho chegou a ser tão intenso que, durante uma temporada entre abril e outubro, chegaram a fotografar cerca de 20 cerimónias. Houve alturas em que Fábio teve de abdicar de oito ou nove sábados consecutivos, algo que tornava praticamente impossível manter equilíbrio na vida pessoal.

Quando percebeu que precisava de abrandar, decidiu criar em 2024 a marca The Legacy, dedicada exclusivamente à cobertura de casamentos a solo, para conseguir selecionar os trabalhos com mais critério e garantir a qualidade que procura entregar.

Mesmo assim, conciliar as duas profissões continua longe de ser simples. Fábio admite que muito do equilíbrio só é possível graças aos colegas do Hospital de Évora, onde integra uma equipa com cerca de 90 enfermeiros, o que facilita trocas de turnos para conseguir garantir a cobertura dos casamentos, para os quais já tem reservas até 2027.

Ainda assim, quando a escala mensal é divulgada, continua a ser um dos momentos de maior ansiedade. Grande parte do trabalho de edição acontece de madrugada. No último ano, a rotina tornou-se ainda mais exigente depois do nascimento do filho, que faz um ano em agosto.

Enquanto a companheira e o bebé dormem, Fábio passa muitas noites no escritório a editar fotografias para conseguir cumprir os prazos de entrega, algo que considera “sagrado e inegociável”.

Quando olha para o futuro, admite que a fotografia lhe traz atualmente mais prazer profissional do que a enfermagem. O grande sonho passa por deixar a saúde e dedicar-se a tempo inteiro aos casamentos, embora continue cauteloso e sem pressas.

Se antes de ser pai imaginava viajar pelo mundo a fotografar destination weddings, hoje a ambição mudou. Quer tornar-se uma referência da fotografia de casamento no Alentejo, apesar de já trabalhar também no norte do País, graças a uma parceria com uma organizadora de eventos que conheceu o seu trabalho.

“Não tenho pressas, não tenho nenhum prazo na cabeça em que queira atingir esse sonho. É ir passo a passo, com calma, tranquilidade e ver o que dá”, diz.

Carregue na galeria e veja o trabalho de Fábio Calisto.

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