É no centro histórico de Odemira que se esconde, contra todas as probabilidades, um dos laboratórios mais fascinantes do universo da história da arte. No número 50 da Rua Alexandre Herculano funciona um estúdio de tecelagem onde um tear manual se cruza com a alta tecnologia, gigabytes de imagens de raio-X e um mistério secular escondido nas obras dos maiores pintores da humanidade, como El Greco, Caravaggio, Diego Velázquez e Ticiano.
A mente por detrás deste projeto é a holandesa Helena Loermans, de 73 anos, tecelã e investigadora que faz parte de organizações culturais, como o International Council of Museums (ICOM) e o Centre International d’Etude des Textiles Anciens (CIETA). No entanto, o seu percurso profissional não começou nas belas-artes, nem na recuperação de têxteis. “A minha formação original é como técnica de laboratório. Trabalhei 15 anos a pesquisar, ao microscópio, músculos e células de ratos”.
Quando questionada sobre o motivo pelo qual se mudou para Portugal há quase quatro décadas, responde com um sorriso: “é uma história de amor”, não entrando em detalhes. A residir na região há 30 anos, tornou-se uma figura indissociável da vida local e integra a CACO – Associação de Artesãos do Concelho de Odemira.
“A Helena faz parte da comunidade”, assegura Paula Lourenço, representante da associação, sublinhando que a ligação ao território é um princípio fundamental para os associados. A CACO, com dezenas de associados de nove nacionalidades, promove o saber-fazer e trabalha em cinco áreas criativas: madeiras, fibras, têxteis, cerâmica e metais. O trabalho destes artesãos assenta no uso de matérias-primas locais ou, à semelhança de Helena, na inspiração que o concelho lhes transmite.
Além da vertente de investigação, o ateliê é um local onde a tradição e o comércio local se mantêm vivos. Quem por lá passa pode ver dezenas de peças tecidas à mão por Helena, de mantas a golas coloridas inspiradas na natureza alentejana.
Reconstrução de telas de pinturas clássicas
Embora Helena se tenha dedicado à tecelagem desde que se mudou para Odemira, o momento de viragem aconteceu com a fundação do projeto pessoal: o Lab O. Criado em 2014, o espaço assumiu como missão a pesquisa e a reconstrução física de telas de pinturas clássicas, um percurso que ganhou força após acolher a jovem polaca Marta Pokojowczyk através do programa europeu Erasmus para Jovens Empreendedores.
A ideia que a colocou no mapa das maiores instituições de arte chegou mais tarde. Em 2017, durante uma visita casual, uma família entrou no seu ateliê e a conversa evoluiu para o universo da pintura clássica. “A senhora disse-me que os mestres espanhóis do século XVI também pintavam sob uma tela com padrão”.
Curiosa com a história, fez uma pesquisa e encontrou “um único artigo com um desenho técnico de uma pintura de El Greco. Tudo começou a partir daí”. A revelação de que as obras do renascimento e barroco não utilizavam apenas as habituais telas lisas de tecelagem simples, mas suportes com padrões geométricos complexos entrelaçados, despertou o seu instinto científico. “Senti que voltei a entrar em casa, porque como fazia análises laboratoriais e agora estava a tecer, foi como unir duas paixões”.

O processo de análise de Helena é minucioso. Uma vez que estas telas raras se encontram debaixo de camadas de cola, gesso, pigmentos e verniz, a tecelã depende do envio de imagens provenientes dos departamentos de conservação dos museus. “Na imagem raio-X, caso seja ampliada, é possível ver a textura. O que estou a fazer é tentar decifrá-la, para saber como todos os fios estavam dispostos. A partir daí, posso fazer o desenho técnico”.
Esta engenharia reversa exige uma paciência, bem como um enorme esforço mental face à dificuldade em isolar a repetição dos motivos geométricos originais. Após decifrar a organização exata das fibras, Helena traduz a estrutura utilizando um software de design têxtil e, de seguida, o tecido ganha uma nova vida num tear manual, que dispõe de uma interface eletrónica capaz de controlar a elevação dos quadros de forma exata.
Desenvolver tecnologia e arte de ponta a partir do interior português não foi isento de desafios, mas tornou a vitória mais saborosa. A artesã faz questão de recordar que todo o projeto assenta numa base digital exigente. “Era indispensável ter uma internet de velocidade suficiente, com capacidade para receber os grandes volumes de imagens raio-X, que às vezes vão até dois gigas. Fazer isto a partir de uma zona rural é a prova para ninguém desistir, porque é possível”.
Entre telas e toalhas de mesa
Mas afinal, por que razão pintores como Francisco de Goya, Rembrandt, El Greco ou Caravaggio procuravam estas telas em vez de opções convencionais? O mistério permanece, em grande parte, porque muitas destas evidências foram apagadas ou escondidas pelas próprias instituições ao longo dos séculos.
Analisando a estrutura dos cruzamentos dos fios, Helena teceu uma teoria que cruza as oficinas artísticas do século XVI com a vida doméstica: a eventual reutilização ou encomenda de tecidos fabricados com o propósito de servir de toalhas. “Estes padrões são de toalhas de mesa. Portanto, havia toalhas com este desenho e geometria”.
Apesar de a investigadora admitir que esta ideia possa não ser “um pensamento muito académico”, as reconstruções abrem portas para que peritos mundiais testem teorias, avaliando se estes padrões proporcionavam maior tensão à superfície ou se apenas facilitavam a aderência das tintas a óleo.
O impacto global da investigação de Helena tem vindo a reparar uma falha estrutural no estudo da arte. “Pensamos que as telas são lisas”. Graças a este pioneirismo, o pequeno estúdio tem colaborado em apresentações digitais para entidades como The Metropolitan Museum of Art (The MET), recebido convites da londrina Courtauld Institute of Art e colecionado elogios de investigadores do Smithsonian Institution.
No entanto, a consagração do projeto Lab O está prestes a chegar com a publicação do primeiro artigo científico sujeito a revisão por pares num volume da National Gallery of Art, em Washington. “Aí é que revelamos esta ideia sobre a origem e o fabrico histórico das telas”, antecipa a investigadora, cujo objetivo final passa por criar uma base de dados open source para democratizar todo este conhecimento.
Para quem quiser mergulhar na técnica destes génios sem sair de Portugal, através do Lab O, é possível adquirir caixas de colecionador, por 85€, com amostras (8×8 cm) destas reconstruções exatas. Também é possível encomendar reproduções individuais de áreas inteiras montadas num caixilho (250€), revivendo o suporte material exato de ícones como o “Enterro do Conde de Orgaz” (1588) de El Greco, as sombras dramáticas de “A Educação da Virgem” (1616-17) de Caravaggio ou a emblemática “Ceia em Emaús” (1620) de Velázquez.
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