Muito antes dos primeiros sucessos de Daniela Mercury começarem a ecoar no recinto da EXPOREG, em Reguengos de Monsaraz, já milhares de pessoas, de diferentes gerações, se aglomeravam para ver de perto um dos maiores furacões da música brasileira. Daniela Mercury, a eterna rainha do axé, está em Portugal com a sua Eurotour Cirandaia e veio provar no concerto desta sexta-feira, 14 de agosto, que a sua energia continua inesgotável.
Antes de os ritmos baianos terem transformado o recinto numa extensão do Carnaval de Salvador, a cantora recebeu a New in Évora para uma conversa exclusiva. Com o sorriso aberto que lhe é característico, a cantora falou sobre a ligação a Portugal e as dificuldades que enfrentou no início de uma carreira que já soma mais de quatro décadas.
A relação da voz de “O Canto da Cidade” com o público nacional não é de agora. Ao longo dos anos, Portugal tornou-se quase uma extensão da sua própria casa, onde é recebida com o mesmo fervor com que atua na Bahia. Durante a conversa, revelou um detalhe familiar que explica esta afinidade, já que a sua ascendência divide-se entre dois países europeus através das avós, uma portuguesa e outra italiana.
Josefina, a avó portuguesa, era concertista de piano, um detalhe que revela que o talento musical já corria no sangue da família muito antes de Daniela Mercury pensar em pisar um palco. A cantora guarda com carinho o facto de esta avó ter vivido tempo suficiente para testemunhar o seu sucesso do outro lado do Atlântico. “Ela esteve presente no concerto no Coliseu”, recorda sobre a presença da avó numa das salas de espetáculos mais emblemáticas de Portugal.
De volta ao Alentejo para o espetáculo na EXPOREG, era impossível não falar sobre a região. “Já é a segunda ou terceira vez que venho aqui”, confessou. Para a cantora, a semelhança não está apenas no clima quente, mas “na alma de quem aqui vive”, descrevendo a região como uma “zona tão bonita, de um povo tão querido”.
Esta imersão na cultura alentejana foi além das paisagens, estendendo-se à arte e ao saber-fazer local. Encantada com a tradição, revelou: “Vou levar uns pratos lindos feitos por oleiros da região”. As peças vão fazer parte do seu espólio pessoal, “feitas por um senhor de 90 anos com um artesanato maravilhoso”.
Como não poderia deixar de ser numa visita a solo alentejano, a gastronomia teve um lugar de destaque à mesa e durante a conversa. Embora o prato não seja típico da região, a artista rendeu-se aos sabores portugueses. “Comi um pouco de polvo, com batata a murro, que adoro”, partilhou.
Da menina bailarina aos 40 anos de carreira
Muito antes de arrastar multidões atrás do trio elétrico, a pequena Daniela sonhava com outros palcos, nomeadamente com a dança. O caminho para o estrelato, no entanto, nem sempre foi fácil. “É muito difícil fazer arte”, desabafou a cantora.
Aliás, a primeira grande resistência começa muitas vezes dentro da própria casa. Explicou que as famílias costumam ter reservas em apoiar este tipo de percursos e, por vezes, “as pessoas tornam-se artistas só para contrariar”, recorda, sublinhando a teimosia criativa que sempre a moveu.
No seu caso, a dinâmica familiar teve nuances. O pai tinha receio de a ver cantar em bares. “Tinha medo de uma filha de 15 anos a cantar à noite, o que é normal”, entende hoje a artista. No entanto, a base de tudo já lá estava. “O meu pai ama música. Colecionava álbuns desde 13 anos e ouvíamos tudo”, conta, elogiando a forma como o pai lhes educou o ouvido.
A mudança de opinião do pai António aconteceu através da emoção. “Quando me viu cantar pela primeira vez, chorou emocionado. Depois confessou: não posso impedir”.
Daniela admite com orgulho que o pai foi o seu grande impulsionador. “Foi ele que me fez ser cantora”, garante. Este amor à música acabou por contagiar toda a família. “Temos duas cantoras e os netos, Gabriel e Mercury, que também participam na tour. Todos formados pelo amor dele à música”.
A conversa antecedeu o concerto que fez vibrar Reguengos de Monsaraz e que ainda teve espaço para apelos importantes da cantora sobre a valorização das florestas, dos povos indígenas, da diversidade e da democracia.
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