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Disse “não” a Hollywood e tornou-se no fotógrafo com mais prémios na Europa

Jerónimo Heitor Coelho acaba de abrir a primeira galeria de autor em Évora e prepara-se para lançar 20 livros de uma vez.

Quando um produtor americano entrou no estúdio de Jerónimo Heitor Coelho, em Évora, e analisou o seu portfólio, a proposta foi imediata e irrecusável para a esmagadora maioria dos profissionais. “Anda comigo para Los Angeles. Em seis meses, tens a agenda cheia para os próximos cinco anos, pelo menos”, recorda o fotógrafo. Qualquer outro teria feito as malas rumo a Hollywood, mas Jerónimo disse que não. “Estava aqui bem”, confessa.

Nascido em Vila Nova da Baronia, “onde é feita a separação entre o Alto e o Baixo Alentejo”, aos 61 anos é um dos nomes da fotografia contemporânea portuguesa. Com um currículo extenso, que inclui o grau máximo de Grão Mestre Fotógrafo pela APPImagem e o certificado Master Qualified European Photographer, alcançado em 2010, já foi considerado o profissional mais premiado da Europa.

Detém 21 medalhas, entre ouro, prata e bronze, como Fotógrafo Europeu do Ano e distinções em oito áreas distintas, desde arquitetura a retrato, sendo o único em Portugal a somar certificados QEP em categorias tão variadas como paisagem, património, comercial e reportagem social.

Ainda assim, a sua essência mantém-se a mesma daquele miúdo que descobriu o seu propósito de vida no Baixo Alentejo. Tudo começou de forma quase acidental, aos 12 anos, quando estudava em Beja e, às quartas-feiras, as turmas iam à Casa da Cultura praticar atividades. “Tive a felicidade, ou a infelicidade, de entrar no laboratório de fotografia e ver a magia acontecer, observar as fotografias saírem da revelação de uma folha de papel através de uma luz, isto ainda com os chamados fotogramas”, recorda.

O fascínio foi imediato. Passados 15 dias, o jovem Jerónimo já tinha o seu próprio laboratório montado em casa. A criatividade falou mais alto na hora de encontrar material logístico: “Arranjei tanques da marmelada, daquelas tinas que antigamente se vendiam em cuvetes, e ia a Lisboa comprar os químicos, o revelador, o banho de paragem e o fixador”. O hobby fundiu-se com a vida e, aos 16 anos, já trabalhava profissionalmente, aprendendo com os grandes mestres em laboratórios e estúdios em Lisboa.

Mais tarde, durante o serviço militar obrigatório em Mafra, o espírito empreendedor consolidou-se e passava a semana a fotografar os camaradas, aproveitando as folgas de fim de semana em Lisboa para revelar as imagens. À segunda-feira de manhã, vendia as fotografias, garantindo assim os primeiros lucros e o vício pelo negócio da imagem.

Quando saiu da tropa, rumou a Évora e, há cerca de 40 anos, abriu a sua primeira loja no Centro Histórico, onde se encontra até aos dias de hoje. Montou um espaço que fugia ao convencional, importando revistas da Alemanha, França e Estados Unidos para partilhar conhecimento numa época em que ir a Lisboa comprar material demorava quatro horas para cada lado.

De loja a galeria de autor

Quatro décadas depois, a vontade de inovar não abrandou. Recentemente, transformou o seu espaço numa galeria de autor, inspirada num modelo que viu nos Estados Unidos através do fotógrafo Peter Lik. “Que tenha conhecimento, não há nenhum fotógrafo em Portugal com uma galeria própria para vender o seu trabalho”, afirma.

O espaço é um projeto familiar, onde conta com o apoio da mulher no atendimento e da filha, designer, mantendo em paralelo os serviços tradicionais para os eborenses que ainda precisam de fotografias tipo passe ou restauros. Além de quadros originais e livros, a galeria terá uma componente de “merchandising” com T-shirts de design exclusivas e estampadas com frases relacionadas com a fotografia, criando assim uma marca identitária.

A abertura do novo espaço aconteceu no passado dia 19 de agosto, mas a inauguração oficial está marcada para 16 de setembro e traz consigo o lançamento do novo projeto de 20 livros de fotografia da autoria de Jerónimo.

No entanto, este projeto nasce de uma tragédia que remonta a 2006, quando uma inundação no seu estúdio destruiu quase todo o seu arquivo de mais de 20 anos, apagando registos de viagens ao Japão, Malásia, Índia, China e Hong Kong. O único negativo que conseguiu salvar na íntegra foi o da sua primeira fotografia premiada internacionalmente: uma medalha de ouro conquistada no Japão, em 1988, que se encontra agora exposta numa das paredes da galeria.

Como forma de renascimento, decidiu criar uma coleção de pequenos livros de bolso. “O primeiro livro será de 2006, com o que consegui recuperar de negativos e digital, e depois será um por cada ano até 2025”, explica. Cada livro vai conter as 50 melhores imagens desse ano. “Tem-me dado um prazer enorme fazer a seleção das imagens e ver a evolução do meu trabalho ao longo dos anos, ver onde estive, desde o Dubai e Hong Kong a Paris e África do Sul”, partilha.

Isto vem juntar-se a um acervo de mais de 50 livros já editados. Jerónimo confessa que o seu grande desafio é tentar ultrapassar o número de obras do mestre António Homem Cardoso, que já vai nos 109 livros. “Vou com 53, agora vou lançar mais 20, fico com 73. É difícil chegar onde ele está. Mas já disse ao mestre: não edite lá mais livro nenhum para ver se o consigo apanhar”, brinca.

Mas a aposta nos livros de autor não foi sempre o foco principal, dado que o choque de realidade se deu em 2019, quando foi convidado para expor sobre o Alentejo na Universidade Lusófona, em Lisboa, durante o Congresso Internacional das Normas ISO. Ao procurar no arquivo, percebeu que, por estar tão imerso no trabalho comercial, não tinha 40 fotografias de autor sobre a região prontas a expor.

Esse momento mudou-lhe o “chip”, levando-o a dedicar-se a criar trabalho de autor todos os anos a partir daí, equilibrando assim a balança.

 
 
 
 
 
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Voltando aos dias de hoje, numa era em que os smartphones banalizaram o ato de fotografar, Jerónimo defende que a verdadeira arte começa na forma de olhar. “A fotografia começa na sombra e depois é que vai para a luz”, reflete, adotando como lema uma frase que encontrou grafitada num prédio em ruínas num hotel em Vila Real de Santo António: “Procure em cada sombra a luz que a desenhou”.

O seu estilo autoral é descrito pelo próprio como “realismo mágico”. “Para mim, as fotografias têm que ser reais, mas dou-lhe alguma magia”, explica. Na prática, isto traduz-se numa limpeza visual, dado que ao fotografar hotéis, para clientes como o Vidago Palace Hotel, Grupo Pestana e Pousadas de Portugal, ou monumentos, Jerónimo estuda a luz exaustivamente e elimina todo o “ruído visual” que não acrescenta valor à imagem, como extintores ou placas de emergência, uma obsessão estética que o leva, por vezes, a regressar quatro vezes ao mesmo cenário, aplicando a lição de paciência que herdou dos grandes mestres.

É esta visão clínica que dita também as suas aversões profissionais: diz não gostar de fotografar moda devido a todo o “show-off” do ambiente e, de igual forma, recusa trabalhos com crianças ou sessões de recém-nascidos.

É precisamente essa base de pensamento que o faz não temer a chegada da Inteligência Artificial, considerando-a apenas uma ferramenta. A sua verdadeira escola, garante, foi o processo analógico. “Aprendi a pensar a fotografia antes de a executar. Não a disparar e depois ver por comparação. Isso aprende-se com o negativo. Quando se disparava, cada clique custava dinheiro”, sublinha, elogiando ainda o rigor dos casamentos – área que abandonou em 2009 – como “uma das melhores escolas que existe”, obrigando o fotógrafo a lidar com a pressão e a dominar variações abruptas de luz, como os “14 diafragmas de diferença” entre uma igreja escura e o sol a incidir num vestido de noiva branco.

Ainda assim, a sua lente também tem sido uma aliada fundamental na valorização da gastronomia. Em 2014, o livro “Comer em Évora” ganhou o prémio da Academia Internacional de Gastronomia em Paris, por fundir receitas, património e restaurantes, seguindo-se a fundação da revista local gratuita “Évora à Mesa”, que já vai na terceira edição e tem publicação garantida nos próximos anos.

Mais recentemente, lançou “Sabores do Tacho”, uma enciclopédia visual focada nas regiões de Portugal, sendo que o volume do Alentejo, pensado para 120 páginas, acabou com mais de 200 e já venceu um prémio nacional de design e fotografia.

Das “ementas fotográficas” às tertúlias mensais

A nível comercial, Jerónimo introduziu o conceito de “ementas fotográficas”. “Não faz sentido ir, por exemplo, a Évora, Capital Europeia da Cultura, e tentar explicar a um turista o que são migas, sericaia ou pezinhos de coentrada sem uma fotografia”.

No entanto, a origem desta inovação é fruto de uma reinvenção pessoal. Em 2016, enquanto fotografava, sofreu um acidente grave onde fraturou os meniscos, causando a rotura de ligamentos no joelho direito. Impedido de realizar trabalhos exigentes em terrenos íngremes, idealizou este conceito de catálogos para restaurantes como um serviço que lhe permitia manter a técnica sem comprometer a recuperação.

E é por isso que a mente criativa do fotógrafo eborense continua a fervilhar. Na nova galeria, vai inaugurar as “Provas de Contacto”, uma série de tertúlias mensais com 22 lugares sentados para falar de arte, história e imagem, transmitidas em direto e gravadas para o YouTube, cujo primeiro convidado, agendado para 24 de setembro, será o próprio António Homem Cardoso. Seguem-se, em edições futuras, outros nomes da fotografia nacional, como José Manuel Rodrigues.

Em paralelo, desenvolve o projeto autoral “Dentro da Caixa”, cuja primeira edição foi dedicada a olhar de forma diferente para as pedras dos monumentos de Évora, estando o segundo volume focado na água, apesar do grande sonho se chamar “Origem Alentejo”.

Trata-se de um livro dividido em nove capítulos – como herança, luz, arquitetura, vagar e identidade – construído sobre as matérias da região: o vinho, o azeite, a cortiça, o mármore e o barro. Para este ano, estabeleceu ainda uma meta peculiar: lançar um livro infantil até novembro com o objetivo de ensinar miúdos dos oito aos 12 anos a compreender e a amar a luz na fotografia, sem o aborrecimento das explicações técnicas sobre diafragmas.

Carregue na galeria e veja o novo espaço de Jerónimo Heitor Coelho.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua do Raimundo, 36
    7000-508 União das freguesias de Évora (São Mamede, Sé, São Pedro e Santo Antão)
  • HORÁRIO
  • Segunda-feira a Sexta-feira:
  • 10h - 13h
  • 15h - 19h
  • Sábado:
  • 10h - 13h
PREÇO
Gratuito

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