Durante anos, Gisèle Pelicot foi drogada e violada pelo marido e por mais de 50 homens, sem que nunca soubesse que estava a ser vítima de um crime horrendo. Só um dia, quando Dominique Pelicot foi preso por estar a filmar debaixo das saias de outras mulheres, é que Gisèle descobriu a verdade. O caso ficou conhecido como Processo de Mazan e é uma das partes retratadas no livro “Um Hino À Vida”, uma obra sobre a história de Gisèle que chegou a Portugal na passada quarta-feira, 19 de agosto.
O livro, escrito na primeira pessoa em colaboração com a jornalista e romancista francesa Judith Perrignon, foi lançado em Portugal pela editora Presença. Percorre a vida de Gisèle Pelicot, de 73 anos, desde a sua infância em Indre, França, até ao casamento de quase cinco décadas com Dominique — durante o qual ocorreram os abusos que deram origem a um julgamento altamente mediático em 2024.
“Quero contar a minha história pelas minhas próprias palavras. Com este livro, espero passar uma mensagem de força e coragem a todos os que possam estar a passar por momentos difíceis. Que nunca sintam vergonha”, escreveu Gisèle Pelicot.
Inicialmente, Gisèle faz uma viagem à infância para recordar a morte da mãe e de como a sua vida era antes dos abusos que viria a sofrer. A partir daí a narrativa centra-se no dia 2 de novembro de 2020, quando, ao acompanhar o marido até à esquadra da polícia — depois de este ter sido apanhado a filmar mulheres por baixo das saias num supermercado —, descobriu a verdade.
Durante a detenção, a polícia mostrou-lhe fotografias e vídeos que documentavam os abusos que Gisèle vivera ao longo dos quase 50 anos de casamento, nos quais Dominique Pelicot a drogava com sedativos e ansiolíticos e a violava, acompanhado de homens que contratava na Internet enquanto estava inconsciente. Ao todo, havia cerca de 20 mil fotos e vídeos que, mais tarde, seriam usados em tribunal.
A mulher afirma que não se reconheceu nas imagens e que o seu “cérebro deixou de funcionar” naquele momento. Além disso, descreveu-se como uma “boneca de trapos”, expressão que voltaria a usar no julgamento.
A obra aborda o choque de descobrir que a realidade que tinha vivido durante décadas coexistia com uma outra que não tinha conhecimento e como foi difícil usar a palavra “violação” para descrever o que lhe tinha acontecido.
Apesar de inicialmente querer um julgamento à porta fechada, Gisèle voltou atrás na sua decisão por achar que assim estaria a proteger os seus agressores — já que, dessa forma, ninguém poderia falar sobre o seu caso nem saberiam o que lhe tinha acontecido. No entanto, apesar de haver, pelo menos, 72 homens envolvidos nos abusos a Gisèle Pelicot, entre 2011 e 2020, somente 50, além de Dominique, foram identificados, julgados e condenados em 2024 a 20 anos de prisão, a pena máxima prevista em França para os crimes deste género.
Outra parte de destaque do livro é a reconstrução da sua vida pessoal depois do fim do casamento. Gisèle conta que se voltou a apaixonar e que a nova relação é uma parte importante da sua recuperação. Além disso, revela que pretende visitar Dominique na prisão, já que quer confrontá-lo diretamente e obter respostas para perguntas que continuam em aberto.
Uma dessas questões terá a ver com a alegação de que Dominique terá abusado também da filha, Caroline Darian, já que a polícia encontrou no computador imagens da miúda a dormir em casa.
Gisèle Pelicot termina o livro com uma nota positiva, afirmando que não perdeu a confiança nas pessoas. E que a sua “maior fraqueza” é hoje a sua “força”.
“Um Hino À Vida” está à venda online e nas livrarias por 17,90€. Leia ainda o artigo da NiT sobre o livro escrito pela filha de Gisèle Pelicot sobre o caso.
Carregue ainda na galeria para conhecer outros livros que chegam às livrarias nacionais em agosto.








