Se passear pelo centro histórico de Évora, é provável que se cruze com a voz e o violão de Levi Santos. Aos 51 anos, o músico brasileiro fez das ruas da cidade o seu mais recente palco, um cenário que contrasta com as praias de Copacabana, onde tocava antes de atravessar o Atlântico. A sua chegada, há quase dois anos, é apenas o capítulo mais recente de uma vida marcada por perdas precoces e um amor pela arte que, contra todas as probabilidades, acabou por lhe devolver a família.
Para compreender a essência da música de Levi, é preciso recuar cinco décadas até ao Rio de Janeiro. O artista nasceu no bairro do Leblon e, desde que se entende por gente, vive envolto em melodias. “Com seis anos, cantava na casa de banho e tentava compor música”, recorda.
Foi a mãe quem primeiro reparou no seu talento invulgar, entre os quatro irmãos. Com um olhar atento para o potencial do filho, começou a levá-lo a testes de televisão. O esforço rendeu frutos e o pequeno Levi conseguiu uma participação na novela “Roque Santeiro”, da Globo, uma das produções televisivas mais famosas da história do Brasil, graças a uma amiga da mãe que trabalhava no canal.
No entanto, quando Levi tinha apenas 12 anos, a mãe faleceu prematuramente, aos 36 anos. “O ruim é que ela morreu muito cedo. Fiquei meio desamparado e a participação em novelas acabou para mim”, desabafa o músico. A tragédia forçou uma mudança drástica de vida. Tendo deixado a zona sul do Rio de Janeiro, onde morava em Ipanema, foi viver com o pai e os avós paternos para Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
Aquilo que parecia ser o fim de um sonho revelou-se, na verdade, no início da sua carreira musical. O avô era pastor da Assembleia de Deus e a família paterna era composta por músicos. “No Brasil, a igreja evangélica é uma escola de música grátis”, explica Levi, sublinhando que foi naquele ambiente que a música lhe “entrou no sangue”.
O sucesso no meio gospel não tardou a chegar e gravou o EP “Sentimentos” com a Banda Liberdade e, mais tarde, um CD com o Grupo Semeando, lançado por uma grande editora brasileira da área. Com a banda, viajou pelo Brasil e pisou palcos em estados como a Bahia e Goiás.
Arte como sobrevivência da alma
Apesar do currículo na música, a instabilidade da profissão é uma sombra constante. Levi ainda tentou fugir ao seu chamamento, mas sem sucesso. Já em Portugal, chegou a tentar trabalhar na construção civil. “Não tenho vocação para a profissão. Os meus amigos levavam-me para ajudar, mas diziam: ‘vai tocar, vai fazer música’. Viam que não tinha jeito nenhum para aquilo”, partilha com humor.
Para o carioca, a arte é mais do que um ganha-pão, é uma questão de sobrevivência da alma. “A gente tem muito pouco tempo para viver a não fazer o que gostamos. Passa muito rápido. O dinheiro nem sempre vem da forma que queremos, mas o universo compensa de outra forma”, reflete.
E o universo compensou mesmo, da forma mais inesperada possível. O último local onde Levi morou no Brasil foi na favela da Rocinha. Durante 10 longos anos, viveu separado dos filhos, que se tinham mudado para Leiria, com a sua ex-mulher.
O reencontro parecia um sonho distante, até a música intervir e um ex-cunhado, conhecedor do seu talento, o levou para França para participar nuns projetos musicais. Finalmente na Europa, a saudade falou mais alto. “Não aguentei ficar lá. Pensei: ‘Vou ficar mais perto dos meus filhos’. Fui para Leiria”, conta. Ao fim de uma década, o músico não só abraçou os filhos, como conheceu os netos, que entretanto tinham nascido. “Se não fosse músico, talvez nunca chegaria aqui”, confessa emocionado.
A mudança para Évora aconteceu há quase dois anos, por indicação de uma amiga brasileira que o encaminhou para o “Capítulo Rio”, um bar na Rua do Raimundo, gerido por um compatriota. Foi ali que começou a enraizar-se na cidade e, durante um ano, Levi foi presença assídua na hamburgueria Sovereign, onde tocava à sexta-feira e ao domingo num projeto de violão, voz e cajón, com o nome “Lá Eles”. Atualmente, além do seu projeto a solo, está a formar duas bandas locais, a “Manda ver” e um novo projeto focado no rock.
A aventura de atuar nas ruas de Évora começou no último mês. Levado por uma das suas maiores inspirações, Milton Nascimento, Levi segue o princípio de que “todo o artista tem que ir onde o povo está” – uma frase do tema “Nos Bailes da Vida”. Acompanhado pelo violão, canta, toca e transmite tudo em direto no TikTok, uma estratégia que adotou tanto para mostrar Portugal aos seguidores brasileiros, como para “perder a timidez” de tocar ao ar livre.
Nas ruas alentejanas, a interação é surpreendente e, embora os turistas estrangeiros passem e sorriam, são os portugueses e os muitos brasileiros residentes ou de visita a Évora quem mais valorizam a sua arte. “Os portugueses entendem a língua, sabem as músicas que estou a cantar e dão mais retorno”, nota. Recentemente, o seu talento captou a atenção de uma influenciadora digital de Belém do Pará, com mais de 150 mil seguidores, que divulgou o seu trabalho no Instagram, provando que a magia da rua está na imprevisibilidade.
O seu reportório é uma homenagem à música popular brasileira. Roberto Carlos é o seu maior ídolo, herança da paixão da sua mãe, mas a sua voz dá também vida a temas de Lulu Santos, Djavan, Caetano Veloso e da musa, Vanessa da Mata. “Só de ver aquela mulher a cantar, a pessoa rende-se. Fora a elegância”, elogia. Contudo, a sua versatilidade também já o fez render-se ao talento nacional, incluindo no alinhamento de temas da banda eborense “Vizinhos”.
Sempre à procura de novas audiências, o músico de 51 anos prepara-se para uma viagem ao Algarve na próxima semana, a convite de uma colega, em busca das oportunidades que o verão no sul do País tem para oferecer. Isto porque, em Évora, não tem conseguido obter rendimentos acima dos 10 euros por dia.
Levi Santos já alcançou o seu maior objetivo. “Já viajei pelo Brasil, gravei álbuns, os meus filhos já estão encaminhados. Só quero continuar a fazer arte enquanto viver.” Contudo, o cantor continua a lutar para subsistir e está sempre aberto a atuar em bares, cafés e eventos. Os contactos podem ser feitos através do seu Instagram.








