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Veio de Almada para o Alentejo e encontrou em Évora o refúgio para escrever

Célia Correia Loureiro acaba de lançar o romance “Doce Setembro” e conta como a cidade mudou a sua vida e a escrita.

Começou a escrever aos 16 anos e encheu um caderno de 200 páginas que acabou arrumado numa gaveta, numa altura em que publicar um livro parecia um sonho demasiado distante. Vinte anos depois, Célia Correia Loureiro recupera essa mesma história e acaba de lançar “Doce Setembro”, apresentado na quinta-feira, 21 de maio, na Livraria Fonte Letras, em Évora

“Senti que é uma história que ainda faz sentido contar. Decidi que era a hora de a concluir, também com um bocadinho mais de maturidade”, explica a escritora de 36 anos em declarações à NiE.

Intitulada “Doce Setembro”, a obra assinala o regresso da autora à Porto Editora, a chancela com a qual já tinha trabalhado em 2019. Mais do que um romance, este livro trata-se do oitavo da sua carreira e o nono já publicado, com uma história que propõe explorar o lado feminino juvenil de “uma menina aprendendo a ser mulher” através da narrativa, cruzando-o em simultâneo com os dilemas de uma mulher adulta que se questiona se está realmente a cumprir os seus sonhos de juventude e se aquela é a vida que idealizou para si.

Embora a obra toque em temáticas mais adultas, Célia Loureiro prefere manter o mistério, deixando a missão de desvendar os segredos da história exclusivamente nas mãos dos leitores. Quanto à experiência, a autora descreve o romance como sendo muito acessível, estruturado em capítulos curtos que facilitam o ritmo de leitura. Segundo a escritora, quem já teve a oportunidade de ler a obra acaba por terminá-la num ou dois dias, o que prova que, não sendo uma leitura propriamente desafiante, é uma viagem literária que convida a muitas reflexões.

A concretização deste projeto traz também memórias antigas. Quando era adolescente, a autora imaginava-se a dar entrevistas sobre os seus livros e sobre o que significava ser escritora. “Usava uma escova de cabelo como microfone”, recorda entre risos, enquanto fingia explicar o processo de escrita e as reflexões sobre a natureza humana.

“Não fazia ideia de que um dia iria realmente ter a oportunidade de falar sobre os meus livros, sobre o processo de escrita e sobre o que é ser escritor. E também ter um papel naquilo que é o incentivo à leitura. O escritor não existe sem o leitor”, partilha.

Apesar de ter construído inicialmente o percurso profissional na área do Turismo e se ter licenciado, é na escrita e na tranquilidade do Alentejo que encontra hoje a liberdade para arriscar e seguir os próprios sonhos.

Célia Loureiro não é natural de Évora. Antes de se mudar para a região, vivia em Almada e viajava frequentemente até à capital alentejana em busca de inspiração e produtividade. “Quando sentia que precisava de um refúgio, porque não estava a conseguir ser produtiva em Almada, marcava um quarto num hotel em Évora”, recorda, numa referência ao antigo Hotel D. Fernando.

Foi apenas em 2024 que decidiu olhar para a cidade de outra forma. Na altura, tinha várias traduções e trabalhos de escrita para terminar antes da passagem de ano e escolheu Évora para se concentrar. “Porque é que eu hei de ver Évora como um refúgio? Porque é que eu não hei de viver nesse refúgio?”, questionou-se.

Célia está a frequentar o primeiro ano do seu mestrado na Universidade de Évora.

A decisão acabou por surgir pouco tempo depois. Vendeu o apartamento no centro de Almada e comprou uma casa para remodelar em Torre de Coelheiros, pequena localidade a cerca de 25 quilómetros de Évora, que descreve como perfeita pela tranquilidade. “Não há um semáforo, não há uma passadeira, portanto é perfeita. Não há barulho, a única pessoa que faz barulho lá sou eu e os meus cães”, conta.

A hospitalidade da região marcou-a desde o primeiro momento. Célia destaca a forma acolhedora como foi recebida e admite sentir um carinho quase maternal por parte das pessoas da região, onde todos parecem preocupar-se genuinamente uns com os outros.

Atualmente, frequenta o primeiro ano do mestrado em História na Universidade de Évora. Grande parte da sua rotina gira em torno do ambiente académico, que considera um “farol de esperança, de futuro e de melhoria pessoal”. Destaca ainda o espírito de entreajuda e o sentimento de “casa” que encontrou na instituição.

Uma paixão pela região

Quando recebe amigos ou família, Célia gosta de assumir o papel de guia turística. Apaixonada por História da Arte, criou o seu próprio roteiro pela cidade. Normalmente começa pelo Palácio de D. Manuel e passa frequentemente pela Fundação Eugénio de Almeida. A escritora faz também questão de destacar o Museu Frei Manuel do Cenáculo, cujo espólio considera surpreendente, incluindo obras de pintores como Bruegel.

Além destes espaços, o percurso inclui quase sempre o Templo Romano de Évora, a Capela dos Ossos e a Igreja de São Francisco, que elogia pelo excelente estado de conservação. Para momentos mais tranquilos, prefere passear pela Praça do Giraldo, pelo Jardim Público ou pelo Colégio dos Leões, núcleo das artes da Universidade de Évora.

Na gastronomia, o lugar cativo pertence ao Monte da Graciete, que descreve como o seu restaurante favorito. Conta até que familiares viajam de Itália para visitar o espaço, apesar de servir apenas almoços.

Para jantar na cidade, uma das recomendações passa pelo Moinho do Cu Torto, restaurante que conheceu pela fama e de que gostou bastante. Sempre atenta a novidades, revela também ter curiosidade em experimentar o Sabor de Casa, restaurante brasileiro que se tem destacado em Évora. “Os brasileiros de Évora dizem que sabe realmente a casa, portanto é o próximo sítio que eu quero explorar”, adianta.

Ainda assim, no quotidiano dividido entre a biblioteca da Universidade de Évora, os estudos e os passeios com os cães, a paragem mais frequente acaba por acontecer no Açaí da Tita.

O futuro na Capital Europeia da Cultura

Ao olhar para os próximos anos, Célia Loureiro mantém como principal objetivo a conclusão da dissertação de mestrado. Ainda assim, graças à fluência em italiano e inglês, ao gosto pela investigação e à experiência como guia turística, espera também conseguir contribuir para as atividades ligadas à Capital Europeia da Cultura.

Para isso, pretende acompanhar concursos públicos e não exclui apresentar candidaturas espontâneas a instituições da região, como a Fundação Eugénio de Almeida ou o Museu Frei Manuel do Cenáculo. “Vou tentar dar um contributo na área cultural à cidade também, assim como tenho recebido”, conclui.

Carregue na galeria e conheça alguns dos espaços favoritos de Célia Correia Loureiro na cidade.

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