fit

Começaram com a primeira sopa da filha. Agora, este casal de Évora entrega cabazes bio

Todas as quintas-feiras, a Horta Aflita distribui produtos da época, 100 por cento livres de químicos.

Nos últimos anos, o regresso ao campo e à terra transformou-se numa missão de vida para vários jovens. Um dos reflexos dessa realidade está em Évora, onde nasceu um projeto de agricultura consciente e de proximidade. A Horta Aflita é o reflexo do amor de dois pais e de uma vontade de mudar os hábitos de consumo da comunidade local. 

À frente deste novo projeto estão Filipa Caixinha e Gonçalo Passinhas, ambos de 28 anos. A ligação ao mundo rural não lhes é estranha, visto que Filipa cresceu com os pés assentes na terra, uma vez que o espaço onde a Horta Aflita agora ganha vida é, na verdade, a antiga quinta dos avós. “Sempre tive muito contacto com o campo, sobretudo com o sítio onde estamos agora”, recorda.

Para Gonçalo, a vivência no Alentejo sempre proporcionou esta proximidade com a natureza, lembrando que “Évora é uma cidade, mas damos dois passos e estamos no campo”, o que torna inevitável um contacto, desde cedo, com as hortas e os animais.

No entanto, foi há cerca de três ou quatro anos que o casal se mudou para a quinta e começaram a cultivar uma pequena horta para consumo próprio. O objetivo inicial era ter vegetais frescos em casa e perceber se conseguiam criar algo que os sustentasse.

“Quando a nossa filha fez seis meses, as primeiras sopas e o primeiro contacto que teve com a comida, sem ser o leite materno, foram os legumes que vinham da horta“, conta Gonçalo, com orgulho. E foi saber que o primeiro alimento sólido da bebé era fruto do próprio trabalho, cultivado com as próprias mãos e livre de qualquer substância tóxica, que fez o clique necessário para levarem a ambição mais longe.

“A partir daí, nunca mais parámos. Fomos sempre aumentando o espaço”, explicam sobre o crescimento natural que começou pelo excedente que era oferecido aos familiares mais próximos e que, rapidamente, se transformou num produto cobiçado pelos vizinhos. “Começou pelas ofertas aos familiares e os excedentes começámos a vender a vizinhos”, relata Filipa.

Apesar de ter sido em novembro do ano passado que os fundadores decidiram profissionalizar o projeto e aumentar a área de produção, para começarem a marcar presença no mercado municipal, em Évora, todos os sábados de manhã, a ideia de criar cabazes semanais esteve sempre no horizonte. No entanto, exigia uma capacidade de resposta e um volume de colheita que só este mês conseguiram atingir com segurança.

Quanto custa e o que inclui um cabaz

Com o apoio de amigos designers, criaram a identidade visual da marca nas redes sociais e lançaram os cabazes da Horta Aflita, distribuídos todas as quintas-feiras. Este formato foi pensado para quem valoriza produtos locais de elevada qualidade, mas não tem disponibilidade para ir ao mercado ao fim de semana.

Com um custo fixo de 15€, cada cabaz inclui, em média, oito produtos da época, selecionados de acordo com o que a natureza tem para oferecer em cada semana. Um dos grandes diferenciais de toda a produção da Horta Aflita é a recusa do uso de químicos. Os fundadores garantem que não utilizam qualquer tipo de produtos, o que significa zero herbicidas, adubos químicos ou pesticidas em tudo o que plantam.

Um dos exemplos recentes, partilhado nas redes sociais da marca, revela um cabaz composto por meia dúzia de ovos, couve kale, beterraba, batatas, cebola nova, espinafres da Nova Zelândia, curgete – ou mini pepinos – e coentros frescos. As encomendas podem ser feitas por mensagem privada nas redes sociais ou pelos contatos telefónicos 961 399 344 e 964 003 373, existindo a opção de entrega ao domicílio ou de recolha diretamente na quinta.

Os ovos, uma adição recente muito procurada, provêm das galinhas da quinta que, segundo Gonçalo, “têm sido generosas”, existindo até a flexibilidade de adaptar o cabaz para quem desejar uma dúzia inteira, mediante disponibilidade.

Quem procura a Horta Aflita quer fugir às grandes superfícies comerciais ou consumir produtos biológicos e sazonais. Há também a vontade de apoiar a economia local e um projeto gerido por dois jovens com práticas 100 por cento sustentáveis. No entanto, há um fator surpresa que atrai muitos clientes: a diversidade.

Isto porque Gonçalo e Filipa fazem questão de honrar a tradição alentejana, mas apostam em nichos de mercado. “Gostaríamos de trazer produtos que são mais difíceis de encontrar nas grandes superfícies”, confessa Gonçalo. É por isso que, nos cabazes da Horta Aflita, é possível encontrar couves de pak choi ou chinesas, várias mostardas, a famosa couve kale, diversas variedades de tomate e até espinafres da Nova Zelândia.

Mas gerir uma horta com este nível de exigência está longe de ser um mar de rosas. Quando questionados sobre as maiores dificuldades, a resposta aponta o planeamento. É que lançar os cabazes implicou assumir um compromisso com o cliente final. “Exige da nossa parte um grande planeamento de culturas para haver alguma diversidade de produtos, para não ser algo repetitivo, mas também assegurar uma determinada quantidade, para garantir àquelas pessoas que são habituais que não lhes vai faltar o cabaz”, detalha Gonçalo, sublinhando que equilibrar diversidade e quantidade é o grande desafio do negócio, a par da imprevisibilidade meteorológica.

Para potenciar a sustentabilidade, quer ambiental, quer financeira, de todo o ecossistema da quinta, o espaço conta com algumas ovelhas, animais que não só representam uma fonte de rendimento complementar, como ajudam a consumir os excedentes da horta, num ciclo fechado de desperdício zero.

Apesar do trabalho na horta ocupar a maior fatia dos dias de Gonçalo e Filipa, os planos para a quinta não se ficam na agricultura. O projeto está ligado à comunidade eborense e já tem parcerias, nomeadamente com a Oficina Fermento.

A curto e médio prazo, o grande objetivo passa por estabilizar a base de clientes, ambicionando garantir a saída de “30 a 40 cabazes por semana”. A par disso, a Horta Aflita vai expandir os horizontes para o turismo. Gonçalo, licenciado na área e com experiência em visitas guiadas, prepara-se para lançar já este verão as experiências imersivas “farm to table”. A ideia é trazer turistas e curiosos à quinta, onde poderão colher os próprios ingredientes na horta e cozinhar refeições tradicionais.

Além dos turistas, os miúdos também têm lugar de destaque na propriedade através da parceria com a Oficina Fermento, que leva os participantes dos campos de férias a sujar as mãos na terra e a aprender sobre a origem dos alimentos. A ambição a longo prazo passa por “olhar para trás e dizer: conseguimos realmente fazer isto”, confidencia Filipa.

Carregue na galeria para conhecer os produtos da Horta Aflita.

ARTIGOS RECOMENDADOS