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Começou como um desafio e tornou-se missão: como mãe e filha trouxeram a Biodanza a Évora

Paula e Raquel Soares estão a mudar vidas com uma prática para todas as idades, que liberta o corpo e a mente.

Para a maioria das pessoas, a ideia de entrar numa sala cheia de desconhecidos e começar a dançar pode parecer, no mínimo, intimidante pelo receio de não ter ritmo, pela vergonha de expor o corpo ou pela falta preparação física.

No entanto, na Biodanza – criada pelo psicólogo e antropólogo chileno Rolando Toro -, não é preciso saber dançar, nem ter uma condição física de atleta de alta competição. O convite é para descobrir “a dança da vida”, onde cada pessoa desenvolve o seu próprio movimento.

Em Évora, esta prática é facilitada por uma dupla única em Portugal: Paula e Raquel Soares, mãe e filha. Tudo começou em 2013, quando Paula, de 58 anos, – professora universitária há mais de três décadas – descobriu a Biodanza na cidade através de uma amiga, que a desafiou a experimentar. Fascinada com os resultados, tentou convencer a filha, Raquel, de 29 anos. No entanto na altura ainda era uma uma adolescente e não achou piada à ideia.

A reviravolta aconteceu anos mais tarde, quando Raquel foi fazer o mestrado em Aveiro. A mãe enviou-lhe informações sobre aulas abertas de Biodanza na região durante um ano. Raquel ignorou, até que Paula mudou de estratégia: enviou o convite a uma amiga da filha, que achou o conceito interessante. Convidou Raquel e o improvável aconteceu. Três meses após experimentar a prática em Aveiro, a jovem decidiu que queria ir mais longe e inscrever-se na escola de formação.

Foi então a vez de a filha puxar pela mãe, tendo Raquel convencido Paula a acompanhá-la no curso. Inicialmente, Paula comprometeu-se a fazer apenas o primeiro dos três anos letivos, para compreender melhor o sistema teórico por detrás da prática que tanto a fascinava.

Contudo, acabaram por entrar juntas, estudaram em Lisboa e titularam-se na escola do Porto no mesmo dia, em 2024. Após um ano de supervisão no terreno e a entrega de uma monografia, semelhante a uma tese de mestrado, e tornaram-se oficialmente colegas. Hoje, nas aulas que facilitam em conjunto, tratam-se carinhosamente por “colega”.

Paula e Raquel Soares

Para quem ainda tem dúvidas sobre Biodanza, Paula e Raquel revelam a sua definição mais romântica: “é a poética do encontro humano” pela capacidade de olhar para qualquer pessoa e ver a sua grandeza humana. Ao contrário de uma aula de Pilates ou Zumba, esta prática não se foca no esforço físico repetitivo ou na técnica. Não se trata aprende a dançar, mas de descobrir o movimento natural em cada uma das pessoas.

Na prática, é uma ferramenta de desenvolvimento humano e um sistema complexo, que exige um longo investimento de quem o facilita. Contrariamente a algumas vertentes com formações curtas, a Biodanza sustenta-se numa base teórica que cruza a biologia, fisiologia, psicologia, filosofia e semântica musical. 

Isto porque até a música usada não é escolhida ao acaso. Trata-se de música orgânica e específica, existindo até o CIMEB – Centro de Investigação de Músicas e Exercícios para a Biodanza -, que fornece um catálogo com sons previamente testados, que garantem o funcionamento de cada exercício. Durante as sessões, uma das premissas é não falar, visto que o corpo assume o comando.

“Tem a componente da atividade física. Usamos o nosso corpo e aprendemos a soltá-lo, a descobrir movimentos e ritmos que, por vezes, não usamos no dia-a-dia”, explica Paula sobre a prática que, embora não seja uma terapia, tem efeitos terapêuticos e focados no autoconhecimento.

A prática acontece em grupo, algo descrito como “continente afetivo”, formado por pessoas que se reúnem todas as semanas, o que ajuda a eliminar a sensação de vulnerabilidade. As facilitadoras explicam ainda que a Biodanza resgata a alegria de viver ao atuar no humor, combatendo tendências depressivas, e que melhora a qualidade do sono.

Paula Soares garante que é normal alguém chegar exausto a uma aula à sexta-feira e, no final, sair com energia suficiente para dizer: “vamos beber uma cidra”, conta, entre risos.

A barreira para dar o primeiro passo é, muitas vezes, psicológica. Paula e Raquel contam que há pessoas que pedem informações, mas chegam a demorar três meses a aparecer nas aulas. Precisam de ganhar coragem para se mostrarem vulneráveis. Porém, as facilitadoras tranquilizam os curiosos, já que as sessões são desenhadas de forma progressiva, sendo mais leves no início.

O desafio de começar do zero em Évora

Apesar do entusiasmo de mãe e filha, implementar o projeto na cidade exigiu esforço. Ao contrário do ioga ou do tai chi, a Biodanza ainda é uma prática desconhecida. Durante o primeiro meio ano, o desafio foi a procura incessante por salas sem cadeiras e mesas, uma tarefa que demorou seis meses, aliada a um trabalho nas redes sociais para atrair curiosos para as aulas de experimentação.

O facto de trabalharem em dupla revelou-se crucial nesta fase, já que a energia de ambas permitiu que se motivassem nos dias mais cinzentos. “Trabalhar em dupla é muito importante. No nosso caso, mãe e filha”, salienta Raquel. A junção da experiência de vida e ferramentas de ensino de Paula com a visão jovem de Raquel criou um equilíbrio na preparação criativa das aulas.

Hoje, a realidade é diferente e a agenda está preenchida, tendo Raquel dedicado quase 100 por cento do seu tempo à Biodanza. Chega a dar oito a nove aulas por semana a todas as gerações, visto que a dupla já conseguiu chegar a vários públicos pela Biodanza ser uma prática para qualquer idade.

Existem turmas semanais para miúdos dos três aos 12 anos no Om Yoga & Som, onde a abordagem tem uma metodologia própria. Além disso, Paula e Raquel trabalham com grupos bimensais de seniores no bairro do Bacelo – com idades entre os 60 e os 80 anos – e com turmas regulares de adultos na Associação PédeXumbo.

Recentemente, a prática expandiu-se até aos corredores académicos, com Paula a ser convidada a integrar a unidade “Artes Criativas, Saúde e Bem-Estar”, lecionando Biodanza aos alunos da licenciatura em Ciências Biomédicas da Universidade de Évora, que já se renderam à experiência.

Raquel tem também projetos no pré-escolar, de onde guarda memórias, como a de um menino de quatro anos que, espantado com a pacificação trazida pela dança, lhe disse: “Os meninos aqui, em vez de lutarem, dão beijinhos”.

Para o futuro, além dos workshops mensais para adultos, a dupla organiza o evento “Dance Your Talk”, cuja primeira edição arranca já em maio. Paula e Raquel estão ainda a desenvolver o projeto Lakumay, idealizado como uma universidade futurista focada em educação alternativa, e planeiam criar parcerias internacionais para trazer grandes nomes da Biodanza até Évora.

No entanto, a maior missão de ambas mantém-se em chegar aos jovens adultos entre os 18 e os 30 anos, onde a ansiedade impera e a dificuldade no toque e nas relações é cada vez mais visível, assim como em atrair famílias inteiras para a dança da vida.

Carregue na galeria e veja o trabalho desta dupla.

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