Muitas pessoas encaram o jejum intermitente como uma ferramenta quase milagrosa para perder peso e melhorar a saúde. Mas será mesmo tão eficaz — e, sobretudo, será melhor do que seguir um esquema de refeições tradicionais?
Para a nutricionista Lillian Barros, não há uma resposta única, mas deixa um alerto claro: o jejum intermitente está longe de ser uma solução universal. Apesar de poder trazer benefícios, depende sempre da forma como é aplicado e, acima de tudo, do que se come.
Afinal, esta tendência não é uma dieta, mas sim uma forma de organizar os horários das refeições. O seu impacto na perda de peso resulta, muitas vezes, de uma redução indireta da ingestão calórica — e não de um efeito metabólico extraordinário. Ainda assim, esse resultado não é garantido.
“Podemos passar horas sem comer e depois, na janela de alimentação, ingerir mais do que precisamos. Nesse caso o jejum não traz benefícios nem para a perda de peso nem para a saúde”, conta à NiT.
Além disso, embora existam indícios de vantagens ao nível do controlo glicémico e da inflamação, esses efeitos estão longe de ser automáticos. A qualidade alimentar continua a ser determinante, independentemente do horário.
A especialista sublinha também que o entusiasmo em torno do jejum intermitente tem sido alimentado por promessas nem sempre sustentadas pela ciência. “Fala-se muito do ‘milagre da juventude celular’, mas a verdade é que não há evidência muito sólida que comprove esses efeitos”, afirma.
Por outro lado, a prática pode trazer desafios, sobretudo numa fase inicial. A fome tende a intensificar-se, o que pode dificultar a adesão e até ter efeitos contraproducentes. “A fome pode ser mais intensa especialmente no início, e isso pode levar a episódios de descontrolo alimentar em algumas pessoas”, alerta.
É precisamente por isso que nem todos devem adotar esta estratégia. Sem acompanhamento adequado, o jejum pode tornar-se um fator de risco, especialmente para quem já tem uma relação frágil com a alimentação. “Sem um início e uma quebra de jejum bem estruturados, podemos estar a comprometer completamente o equilíbrio alimentar”, acrescenta.
Também os protocolos mais restritivos levantam preocupações. Quando a janela de alimentação é demasiado curta, torna-se difícil garantir o aporte nutricional necessário ao bom funcionamento do organismo — um problema frequentemente ignorado por quem segue estas práticas de forma autónoma.
Tal como muitos cientistas (e não só) já afirmaram, a crescente popularidade do jejum intermitente deve-se sobretudo à procura de soluções rápidas e fora do convencional. Num contexto em que muitas pessoas se sentem perdidas em relação à alimentação, estas estratégias acabam por ganhar terreno.
“Hoje vemos pessoas que comem de manhã sem terem fome real e, ao final do dia, já consumiram praticamente tudo o que precisavam — isto mostra uma grande desconexão com os sinais do corpo”, observa.
Ainda assim, quando se coloca a questão de saber se o jejum intermitente é melhor do que uma dieta tradicional, a nutricionista não tem uma resposta fixa. Afinal, tudo depende da qualidade da alimentação e da adequação ao estilo de vida de cada pessoa.
No entanto, há um ponto em que não há dúvidas: a dieta mediterrânica continua a ser o padrão de excelência e devia ser seguido por mais pessoas (mesmo sem fazerem jejum). Rica em produtos frescos, sazonais e de origem vegetal, esta abordagem está profundamente enraizada na cultura alimentar portuguesa — mas tem vindo a ser progressivamente abandonada. “Estamos a consumir menos fruta, menos hortícolas e a afastarmo-nos daquilo que sempre fez parte da nossa tradição alimentar”, lamenta.
Ainda assim, o jejum intermitente pode ser integrado neste modelo, desde que haja equilíbrio e planeamento. O problema não está necessariamente na estratégia, mas na forma como é aplicada. “Não há uma fórmula única — o mais importante é perceber o que funciona para cada pessoa e garantir que há consistência e qualidade alimentar”, conclui.
Carregue na galeria para conhecer algumas receitas cheias de proteína, um nutriente indispensável ao corpo humano.

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