A vida tem uma forma peculiar de trocar as voltas quando menos se espera. Para Helena David, de 27 anos, o plano era ser jogadora de futsal. Chegou à primeira divisão nacional e sonhava ser chamada à seleção. Sabia que, sendo mulher, dificilmente seria uma atleta profissional, não recebendo qualquer compensação financeira, mas a paixão pelo desporto falava mais alto.
Tudo corria bem, até que o corpo deu um sinal de paragem. Helena foi diagnosticada com fibromialgia, uma doença crónica que lhe retirou a capacidade física para continuar a competir ao mais alto nível. “Tive que desistir desse sonho e voltei para Évora”, recorda. O luto pela carreira desportiva não foi fácil. “Tive muito tempo perdida, sem saber o que ia fazer sem ser jogadora de futsal”, revelando que é um processo que ainda hoje trabalha em psicoterapia, para ir aceitando aos poucos.
Foi nesse período de incerteza que a vida lhe abriu uma nova porta. Apesar de ter tido gatos, a adoção da primeira cadela fez com que começasse a perceber que o seu futuro poderia passar pela causa animal. Tendo isso em mente, dedicou-se à formação, tirou o curso de auxiliar de veterinária e especializou-se em tosquias. Pouco depois, começou a trabalhar no Hospital Veterinário Muralha de Évora.
Já o serviço de pet sitting surgiu de forma “um pouco espontânea”. Como trabalhava na área, as amigas da mãe e familiares começaram a pedir-lhe que tomasse conta dos animais quando iam de férias. “Foi algo que comecei a fazer para ajudar pessoas conhecidas e acabei por fazer formação nessa área”, conta.
O passa-a-palavra fez o seu trabalho e a carteira de clientes não parou de crescer, levando Helena a chegar a um ponto em que o volume de trabalho era tal que fez com que se despedisse do hospital veterinário. Por isso, há praticamente dois anos que se dedica a tempo inteiro à nova profissão.
Agenda lotada para o verão
Os números do projeto impressionam para uma cidade da dimensão de Évora. Helena cuida diariamente de 10 a 15 animais e tem perto de 200 clientes, ou seja, pessoas que já recorreram os seus serviços mais do que duas vezes. “Todos os anos deixam no verão já marcado para o ano seguinte”, sublinha. Para este ano, já só tem vagas disponíveis a partir de setembro.
Mas o sucesso de Helena vai muito além de “gostar de cães”. Esta nova profissão, que em Évora se torna cada vez mais requisitada, exige conhecimento técnico. “Não basta gostar de animais. Conheço enfermeiros ou médicos veterinários que são os próprios a dizer que não conseguiam ter este trabalho”, afirma.
Para a jovem, ter os animais das outras pessoas a seu cargo é uma grande responsabilidade. “Tem que se perceber de comportamento animal e é necessário saber ler os sinais para evitar brigas. Temos que estar 100 por cento alertas”, explica, não hesitando em desmistificar a visão romântica que muitos têm da profissão: “Há pessoas que dizem ‘ah, tens um trabalho tão giro, passeias com cães e dás festas’, mas também evitamos conflitos e temos que estar preparados para isso”.
A experiência adquirida com animais agressivos no Hospital da Muralha foi fundamental para saber segurá-los e ler a comunicação canina. Sobre a oferta de serviços, é vasta e adapta-se a todas as necessidades. O serviço clássico de pet sitting é feito ao domicílio e Helena desloca-se a casa das pessoas para alimentar os animais, tratar dos passeios e até dar medicação, uma valência que a formação como auxiliar de veterinária lhe permite assegurar em total segurança.
Já nos passeios, aposta em opções inovadoras. Além dos normais, criou o conceito de “turmas”, separadas entre os turnos da manhã e da tarde. “Vou buscá-los todos a casa, levo-os ao parque. Estou lá mais ou menos uma hora e meia com todos e depois vou levá-los cada um à sua casa”, descreve. Este método permite que os cães corram soltos e socializem, embora Helena sublinhe que apenas o faz com cães sociáveis.
Um dos mais assíduos nestas turmas é Ollie, o cão do maestro Martim Sousa Tavares, que fez questão de elogiar o trabalho da pet sitter em entrevista à NiE.
Wedding pet sitting ou pet táxi
A pensar em dias inesquecíveis, Helena oferece ainda o wedding pet sitting, acompanhando os cães dos noivos durante a cerimónia e sessões fotográficas, um serviço que “tem tido bastante saída”. Há ainda o pet táxi, que assegura o transporte dos animais para consultas, banhos e tosquias quando os donos não têm disponibilidade.
Lidar com quase 200 clientes acaba por gerar histórias caricatas e, embora lide maioritariamente com cães e gatos, o animal mais insólito que já teve a seu cargo foi um grilo. “A pessoa apanhou-o da rua, por ser inverno, e neste caso ia cuidar do cão e do grilo”, recorda Helena, que já teve ao seu cuidado tartarugas, peixes, chinchilas e vários animais de campo.
Quanto a novos projetos, às quartas-feiras colabora com um ATL Canino na cidade e foi este contacto que despertou o seu próximo grande objetivo: “ter o meu ATL, que em princípio será para breve”, revela.
Este novo projeto será desenvolvido em parceria com António Castro, treinador canino com quem Helena já colabora regularmente. “Muitos dos clientes dele vieram através de mim e era algo que fazia falta em Évora. Está a ser muito bom para os dois”, explica, frisando a importância de trabalhar apenas com profissionais qualificados, que tenham noção da responsabilidade de trabalhar nesta área.
O feedback positivo tem sido uma alavanca emocional, o que a ajuda na aceitação do passado. “Neste momento, ser reconhecida e valorizada neste novo sonho é bom para a minha aceitação do que já passou”. Os preços dos serviços de Helena são calculados mediante orçamento e variam consoante a complexidade e o tipo de serviço requisitado.
Carregue na galeria e conheça o trabalho da petsitter.







