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Enfermeira cria projeto em Évora para apoiar famílias desde a gravidez ao pós-parto

O Amamentarte nasceu para desmistificar a maternidade, garantindo apoio numa das fases mais vulneráveis dos pais.

Marta Oliveira trabalhava numa urgência pediátrica quando percebeu os riscos de levar um bebé com poucos dias de vida a uma consulta naquele ambiente. Enfermeira desde 2009 e mãe de três filhos, mudou-se de Oeiras para o Alentejo e lançou a Amamentarte, um projeto para desmistificar a maternidade, promover a amamentação informada e acompanhar os pais numa das fases mais vulneráveis das suas vidas.

A paixão pela área da saúde nasceu com ela. Hoje com 40 anos, lembra-se de ser pequena e ter uma certeza absoluta sobre o seu futuro profissional, inspirado por uma prima mais velha, pediatra, que tinha o fascínio por cuidar do próximo. Foi assim que entrou no curso de Enfermagem, em 2004, e que se apaixonou pelo contacto humano logo nos primeiros estágios.

A jornada profissional começou em 2009, num serviço de urgência pediátrica em Portimão. Foi lá que teve o primeiro choque de realidade que moldaria o seu futuro. Além de miúdos mais velhos, Marta recebia frequentemente mães com bebés recém-nascidos, de apenas quatro ou cinco dias, que recorriam ao hospital durante a noite, por desespero.

Com o leite a subir, dores físicas, dificuldades em pôr o bebé à mama e sem apoio imediato dos centros de saúde, a urgência parecia ser a única saída das famílias. No entanto, como Marta rapidamente interiorizou, um serviço de urgência, com viroses e outras crianças doentes, é um ambiente desadequado para o sistema imunitário frágil de um recém-nascido.

Foi este cenário que a impulsionou a procurar formações e a compreender a falha que existia no apoio pós-parto. Depois de passagens pelo bloco de partos, acabou por integrar a equipa do Hospital Lusíadas, em Lisboa, onde assumiu a responsabilidade de um projeto pioneiro na altura: as visitas domiciliárias pós-parto.

Durante cinco anos, liderou este serviço e confirmou que a magia do aconselhamento acontece no conforto do lar. Um profissional de saúde entra no “espaço seguro” das famílias, as intimidades, medos e ansiedades fluem de forma muito mais natural do que num consultório clínico, visto que a sobrecarga dos primeiros dias faz com que as orientações dadas nas primeiras 48 horas de internamento sejam esquecidas pela privação de sono.

Apesar de adorar o trabalho na capital e a vida em Oeiras, a logística de criar três filhos pequenos numa zona de trânsito intenso e ritmo acelerado começou a pesar na dinâmica familiar. Em busca de qualidade de vida, Marta e o marido decidiram voltar às raízes alentejanas. Naturais de Aljustrel, escolheram Évora para se estabelecerem há três anos, tendo sido este o ponto de viragem para deixar o trabalho hospitalar e dedicar-se ao seu projeto Amamentarte.

Além de ser conselheira de amamentação pela UNICEF desde 2013, no âmbito da iniciativa Hospital Amigo dos Bebés, Marta alcançou há cerca de um ano e meio a certificação internacional IBCLC (International Board Certified Lactation Consultant). Trata-se de um nicho profissional regulado por órgãos internacionais de acordo com as normas da Organização Mundial de Saúde.

Esta certificação obriga a reavaliações e formações intensivas a cada cinco anos, garantindo que o apoio prestado é baseado na melhor evidência clínica atualizada. Na cidade de Évora, existem apenas quatro profissionais com esta titulação, mas Marta destaca-se por ser a única a desenvolver um projeto individualizado.

Contudo, os diplomas por si só não fazem uma boa profissional. A empatia de Marta vem da própria vivência porque, apesar de ser da área da saúde e de ter tido gravidezes tranquilas, a maternidade trouxe-lhe os mesmos medos que assombram qualquer mulher.

Com a filha mais velha, que precisou de suplemento alimentar ao nascer, recorda ter chorado imenso, pela sensação de falha, até o marido a acalmar: “És da área, confio plenamente em ti”. É essa humanidade sem julgamentos que leva para a casa dos clientes, sabendo que as dúvidas mais comuns nas primeiras semanas rondam as dores ao amamentar, a incerteza sobre se o bebé está a mamar o suficiente, o desespero com as rotinas de sono e o desafio de manter a identidade e cumplicidade do casal no meio do caos.

A Amamentarte foi desenhada para dar resposta prática a todas estas angústias, oferecendo um leque de serviços que abrange desde a gestação até ao momento do desmame. As sessões podem ser feitas de forma presencial – a modalidade de eleição de Marta pela facilidade em observar as dinâmicas físicas do bebé e da mãe – ou através do formato online.

Objetos de trabalho usados por Marta Oliveira

Para se adaptar a cada família, o projeto divide-se em várias frentes de atuação. A Consulta de Amamentação e Parentalidade Pré-Natal foca-se num acompanhamento dedicado à construção do plano de amamentação ainda durante a gravidez.

As Consultas Personalizadas garantem apoio adaptado do pós-parto até ao primeiro ano de vida ou desmame, abordando o esclarecimento de dúvidas do dia a dia. Existe ainda uma consulta estratégica desenhada para preparar o regresso ao trabalho após o fim da licença parental.

Para simplificar a vida de quem não tem tempo a perder, Marta estruturou os serviços em pacotes evolutivos. O Pack I inclui uma visita base ao domicílio na primeira quinzena pós-parto para cuidados ao recém-nascido e apoio prático, seguida de uma segunda visita de consolidação na quarta semana de vida do bebé.

O Pack II eleva o acompanhamento, juntando a estas duas visitas presenciais mais duas consultas online, geridas ao longo dos primeiros três meses, consoante as maiores necessidades do casal. O mais abrangente, o Pack III, engloba a consulta pré-natal em casa, as duas visitas do primeiro mês, duas sessões online alargadas até aos seis meses e finaliza com a consulta de preparação para o regresso à vida ativa. Para casos que exijam máxima exclusividade, a modalidade Acompanhamento One2One cria um plano desenhado à medida, a começar na gravidez.

Com uma página de Instagram em crescimento desde janeiro e um novo site, Marta recusa-se a estagnar e olha para o futuro da saúde na cidade com ambição. A médio e longo prazo, o grande objetivo é inaugurar um espaço clínico multidisciplinar em Évora, juntando áreas essenciais como a fisioterapia, osteopatia e terapia da fala, permitindo cuidar das famílias de forma holística.

Ainda antes disso, a enfermeira promete tentar revolucionar o tecido empresarial da região. O próximo passo é consciencializar as empresas locais para a urgência de apoiar a parentalidade, criando espaços equipados para a extração de leite durante o horário laboral, compostos por um frigorífico dedicado e uma poltrona confortável, para que nenhuma colaboradora tenha de se esconder numa casa de banho.

Como Marta relembra diariamente, reduzir a hormona de stress das mães e potenciar as hormonas de felicidade é o segredo biológico para a produção de leite e sucesso da amamentação. Ao valorizar estas infraestruturas, as empresas ganham colaboradores mais calmos, bebés que adoecem menos e uma redução no absentismo laboral.

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