Se acha que o Cromeleque dos Almendres é apenas um conjunto de pedras antigas, a realidade é bem diferente. A New in Évora foi ao encontro da arqueóloga Sira Camacho, que dedica muitos dos seus dias a este monumento através de visitas guiadas ou do apoio prestado no Centro Interpretativo dos Almendres.
Situado a cerca de 412 metros acima do nível do mar, na União de Freguesias de Nossa Senhora da Tourega e Guadalupe, em Évora, o Cromeleque dos Almendres insere-se num contexto único. “Pelas datações, sabemos que temos os monumentos megalíticos mais antigos da Europa. Estamos, muito provavelmente, no berço das culturas megalíticas, que mais tarde se expandiram para a Bretanha e o Reino Unido”, explica a arqueóloga .
Ao contrário de outros recintos megalíticos da região que mantêm a sua forma original, o Cromeleque dos Almendres destaca-se por ter sido alterado e expandido ao longo de séculos. “Isto quer dizer que as pessoas o ocuparam por mais tempo do que os outros”, sublinha Sira Camacho, visto que o monumento consiste numa ferradura original à qual foi adicionada uma segunda ferradura no fundo.
O berço dos ensopados, caldos e migas
Foi na transição para o Neolítico que passámos a ser sedentários, a depender da produção própria e a criar a gastronomia que ainda hoje define o Alentejo. “A maioria das pessoas não tem noção de que os ensopados, os caldos, as sopas, as migas… essas papas vêm do Neolítico, quando começámos a usar cereais para fazer pão e a cozinhar com cerâmica”, recorda.
Este último detalhe é especialmente importante porque foi na introdução da cerâmica que se permitiu, pela primeira vez, cozinhar em água. Por isso, podemos arriscar a dizer que foi aqui que a floresta densa e variada – o “bosque mediterrânico” – se transformou no que hoje conhecemos como montado, dominado por sobreiros e azinheiras. Um trabalho feito pela mão humana durante milhares de anos, para criar o espaço ideal para os pastores e agricultores desenvolverem as suas atividades.
Embora existam dezenas de monumentos na região, os recintos megalíticos – conjuntos de menires organizados – são específicos do Alentejo Central, encontrando-se apenas nos municípios de Reguengos de Monsaraz, Évora, Mora e, curiosamente, Montemor-o-Novo, o que detém o maior número.
Estes recintos seguiam regras de construção rigorosas, o que indica que estas comunidades eram altamente organizadas, dado que a orientação era sempre numa encosta virada a nascente – Este – e todos apresentam a mesma forma de uma ferradura ou semicírculo alongado.
Sira nota que esta padronização, que se repete em cromeleques como os da Portela de Mogos ou do Vale Maria do Meio, contrasta, por exemplo, com os monumentos circulares dos britânicos. A especialista explica que a celebração da primavera e do outono nestes locais não era apenas para saber quando plantar e colher, mas sim uma questão de imaginário e de celebração da vida, visto que existe um paralelismo com as tradições cristãs posteriores.
Mais do que um lugar de culto
Um dos pontos em que a arqueóloga é mais assertiva é na crítica à visão redutora ensinada nas escolas de que estes locais serviam apenas para o culto religioso. Para Sira, os recintos megalíticos também eram os “parques de feira” ou as “praças” da pré-história, funcionando como locais de afluência para trocar animais e produtos, trocar conhecimento, conhecer pessoas de outros povoados para prevenir a consanguinidade e celebrar, comer e dançar juntos.
“Nenhum ser humano vai a qualquer sítio só para o culto. Mesmo quem vai à missa, vai mais cedo para conviver”, exemplifica. Para a arqueóloga, o Cromeleque dos Almendres era onde as pessoas “acorriam várias vezes ao ano”, funcionando como as nossas feiras de maio ou setembro.
Apesar da importância mundial, a gestão de monumentos como o Cromeleque dos Almendres enfrenta desafios, dado que os monumentos são públicos, mas a terra onde se inserem é, na sua maioria, privada. Além disso, a visita desenfreada sem educação patrimonial tem causado danos, com lixo, fogueiras e oferendas deixadas nestes locais, o que faz com que defende que a educação deve vir antes da divulgação.
“Muitas vezes desmantelam os monumentos ou ignoram que lá estão”, lamenta Sira, ao sublinhar que a compactação do solo pelas visitas impede o crescimento das ervas, o que acelera a erosão.
Como visitar o Cromeleque dos Almendres
O ponto de partida deve ser o Centro Interpretativo dos Almendres, na aldeia de Guadalupe. Além de uma exposição sobre a paisagem e a arqueologia, os visitantes podem encontrar uma loja com produtos que ligam o passado ao presente, como o azeite.
A empresa Ebora Megalithica, com a qual a Sira colabora, oferece visitas guiadas conduzidas por arqueólogos, com uma duração média de três horas por 30€ por pessoa, para grupos pequenos, ou 35€ se o ponto de encontro com os visitantes for em Évora. No entanto, mesmo que decida ir sem acompanhamento, é aconselhável contactar o centro – aberto das 9 às 17 horas -, pois acessos podem ser mais difíceis em dias de chuva.
Para mais informações pode consultar o site ou as redes sociais oficiais da Ebora Megalithica ou ainda o email eboramegalithica@nullgmail.com e o telefone 266 782 069.
Carregue na galeria e veja mais fotos do Cromeleque dos Almendres.

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