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Este engenheiro de Évora criou uma app gratuita que promete ajudar crianças com autismo

No meio de um ano familiar conturbado, Bruno Gomes investiu milhares de euros no projeto revolucionário.

Quem convive de perto com o autismo compreende que as batalhas mais exigentes vão muito além do que a sociedade observa. Entre a sobrecarga das horas de terapia, os bloqueios de comunicação e os picos de ansiedade perante tarefas aparentemente simples, os dias podem ser exaustivos. Foi precisamente para responder a estas dificuldades que surgiu a Caju, uma plataforma digital portuguesa, desenvolvida no Alentejo, pensada para apoiar crianças no espectro do autismo, as suas famílias e os profissionais clínicos.

Por detrás desta ferramenta tecnológica está Bruno Gomes, engenheiro informático de 27 anos, natural de Évora. A ideia para o projeto nasceu há cerca de um ano, a partir de uma necessidade pessoal e familiar. “Começou por causa da minha irmã e do meu sobrinho. Ele tem autismo e vi de perto o que é andar a lutar por apoio, não perceber o que acontece nas sessões e chegar a casa sem saber o que fazer a seguir”, explica o fundador.

O ano que antecedeu a criação da Caju foi, segundo o próprio, um dos mais conturbados da sua vida. O pai sofria da doença de Parkinson e acabou por falecer em janeiro. Apenas um mês antes dessa perda, a mãe sofreu um grave acidente vascular cerebral (AVC), que lhe retirou subitamente parte da capacidade de comunicação e compreensão. Perante este cenário e convivendo de perto com um sobrinho no espectro do autismo, com quem chegou a coabitar e a lidar diariamente com crises e episódios de seletividade alimentar, Bruno encontrou a motivação para agir. A primeira grande missão foi desenvolver uma solução que pudesse, de alguma forma, devolver a comunicação a pessoas atípicas ou neurodivergentes.

O projeto começou por se chamar Mind Therapy e foi no PACT, Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia, em Évora, que os primeiros protótipos ganharam forma. Numa fase inicial, o jovem engenheiro idealizou uma ferramenta abrangente, capaz de apoiar desde vítimas de AVC a pessoas com Alzheimer ou demência. Contudo, o rumo mudou após várias sessões de mentoria, onde percebeu que, para gerar um verdadeiro impacto, teria de concentrar o projeto num nicho específico. “Acabei por descobrir que não podia ajudar toda a gente, não dá para fazer uma aplicação que ajude toda a gente”, recorda. “O nicho que eu encontrei mais fácil de alcançar, que tinha menos ferramentas a serem desenvolvidas nesse âmbito, foi a parte do autismo”, acrescenta.

Disponível online e adaptável como aplicação para telemóveis e tablets, a Caju funciona como um companheiro gamificado para os miúdos. Na prática, reúne num único espaço digital e seguro todo o material pedagógico que famílias e terapeutas habitualmente preparam à mão, em longas horas de recortes e plastificações.

A principal funcionalidade são os Quadros de Comunicação Aumentativa e Alternativa. Estes quadros são compostos por pictogramas do sistema Arasaac, nos quais a criança toca para se fazer ouvir. Cada toque vocaliza de imediato a palavra ou necessidade, para dar voz a quem comunica muito melhor a apontar do que a falar.

Outra das inovações da aplicação são as rotinas visuais passo a passo. As crianças com autismo lidam frequentemente com um elevado grau de ansiedade perante a imprevisibilidade. Através desta funcionalidade, tarefas caóticas podem transformar-se em momentos mais tranquilos. A Caju divide atividades do dia a dia, como as manhãs, as idas à escola, a higiene ou as refeições, em instruções visuais e afetuosas. A criança vê o que acontece a seguir, toca para concluir cada etapa e recebe uma pequena recompensa visual, como estrelas ou confetes. O mais importante é que nunca é punida se precisar de parar. Não existem cruzes vermelhas de erro nem cronómetros de pressão.

Imagine um sábado de manhã. São 07h30 e o Tiago acorda. Nesse dia, a rotina de higiene já não depende de um papel impresso preso à porta do frigorífico. Pega no tablet e vê os passos: ir à casa de banho, lavar as mãos, escovar os dentes e tomar banho. Quando termina, toca no ecrã para confirmar e a rotina avança. Às 08h10, quando sente sede, acede ao Quadro de Comunicação, seleciona um cartão e o dispositivo diz em voz alta: “Quero mais sumo”. A família percebe de imediato o pedido e o sumo chega sem gritos nem a barreira da frustração.

Se mais tarde estiver marcada uma ida ao cabeleireiro, situação que costuma gerar birras, o Tiago pode recorrer às histórias sociais ilustradas. Com recurso a Inteligência Artificial, a plataforma narra de forma tranquila que a criança se vai sentar numa cadeira grande e que a máquina apenas fará cócegas. A biblioteca da aplicação inclui já mais de 200 histórias prontas a utilizar, bem como dezenas de exercícios para praticar a escrita de letras e números diretamente no ecrã.

 
 
 
 
 
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Para os profissionais de saúde e educação, a plataforma criada em Évora representa uma revolução logística. Um inquérito promovido por Bruno Gomes, com 318 respostas validadas, revelou que 76 por cento das famílias e terapeutas nunca tinham utilizado ferramentas digitais específicas para este fim. Atualmente, sabe-se que um terapeuta gasta, em média, cerca de cinco horas por semana apenas na pesquisa e preparação de materiais clínicos. “Isto traduz-se em imenso dinheiro”, sublinha Bruno, antes de questionar: “E se nós pudermos, em vez de gastar cinco horas, gastar dois minutos?”.

Com a Caju, essa preparação passa a demorar apenas alguns minutos. “Eles chegam lá e pedem materiais, comunicação, rotinas e em dois minutos conseguem receber conteúdos para usar com a criança”, explica o fundador. A aplicação compila ainda todos os dados das sessões e converte-os automaticamente em relatórios sem jargão clínico, que os pais conseguem ler em poucos minutos. E, para as famílias que preferem reduzir o tempo de ecrã, todo o conteúdo pode ser gerado e impresso em formato PDF.

“Às vezes acontece que os pais são explícitos e dizem às clínicas, aos terapeutas que não querem usar aplicações ou tablets com crianças”, reconhece o engenheiro. Para responder a essa realidade, “tudo o que nós temos na aplicação dá para imprimir. Têm a impressora a imprimir e estão prontos para ir ao dentista e usar o papel, se houver essa necessidade”.

Para aperfeiçoar todos os detalhes, Bruno conta com o apoio de conselheiras como Beatriz Conceição, terapeuta da fala e coordenadora da clínica Escutamente, em Évora, responsável por assegurar a ligação entre o produto e a prática clínica. A elas juntam-se Ana Castro e Mónica Teixeira, educadoras e conselheiras de acessibilidade oriundas da Madeira, uma região que o fundador elogia pelo avançado nível de inclusão e pelos recursos disponíveis para necessidades educativas especiais. Recentemente, a equipa ganhou também o reforço de um profissional dedicado ao marketing para impulsionar o projeto.

O trabalho desenvolvido nos bastidores começa agora a traduzir-se em parcerias de relevo. Nas últimas semanas, Bruno reuniu com várias instituições de referência a nível nacional. “O meu objetivo nestes próximos dois meses é conseguir fechar estes pilotos com estas referências em Portugal”, revela o fundador. Segundo explica, estas entidades “vão usar a aplicação para ter algumas métricas de impacto, ter a certeza que isto funciona com as crianças, que as crianças conseguem aprender em algum aspeto, conseguem comunicar”.

Estão já a ser preparados projetos-piloto com entidades como a clínica Escutamente, a Inovar Autismo e o Centro ABCReal. A plataforma encontra-se ainda em negociações para integrar um programa financiado pelo Norte 2030, dedicado à intervenção precoce em crianças até aos quatro anos.

A Caju garante que a plataforma será sempre gratuita para os pais, reconhecendo que estas famílias já suportam mensalmente despesas elevadas. “Os pais já estão muito apertados em termos monetários, já gastam centenas de euros mensalmente com terapias. Não queremos meter esse fardo em cima deles”, reforça o fundador.

Quando a plataforma sair da fase de acesso antecipado, os planos de subscrição serão dirigidos exclusivamente a clínicas, escolas e terapeutas que pretendam limites superiores de utilização de Inteligência Artificial para as suas equipas. Bruno é claro quanto ao propósito da ferramenta. “Eu não quero criar uma aplicação para substituir profissionais de saúde, porque acho que há imensa falta de terapeutas da fala e psicólogos nesta área e eu não quero substituir o trabalho deles. Inclusive quero que haja mais, mas que estes profissionais consigam otimizar e tornar o seu tempo mais eficaz”, faz questão de sublinhar.

Por enquanto, Bruno Gomes divide os dias entre o trabalho noutra startup e o desenvolvimento da Caju. Apesar de já ter investido mais de oito mil euros do próprio bolso sem qualquer retorno financeiro, diz que a verdadeira recompensa chega através das pequenas conquistas do dia a dia. “Já gastei imenso dinheiro, mais de oito mil euros sem dúvida, e não ganho um euro até ao momento, mas este impacto que causa nas crianças paga tudo”, confessa.

O maior prémio, recorda emocionado, foi saber que uma criança em Évora passou a entrar no consultório de terapia a gritar o nome da aplicação. A Caju não pretende diagnosticar nem substituir o papel dos terapeutas. A missão passa por simplificar o dia a dia das famílias, aproximar o trabalho clínico da rotina em casa e ajudar a garantir que a voz de todas as crianças possa, finalmente, ser ouvida.

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