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Martim Sousa Tavares trocou Lisboa por Évora e revela os espaços favoritos na cidade

Do pequeno-almoço na Praça Giraldo às refeições em tabernas, o maestro vive aquela que descreve como a rotina mais feliz que já teve em qualquer cidade.

“É o que todos me perguntam”, começa por confessar o maestro e escritor Martim Sousa Tavares, de 35 anos, quando questionado sobre o motivo que o levou a escolher viver na capital alentejana. A curiosidade é tanta que parece tratar-se de um ato invulgar o de abandonar Lisboa, sublinhando que a mesma estranheza raramente se aplica a quem faz o percurso inverso.

“Parece que é algo invulgar, alguém vir para aqui de uma forma que não se pergunta porquê Lisboa, quando alguém vem de Évora para a capital”, refere. A verdade é que a mudança não foi obra do acaso, mas sim o culminar de uma paixão antiga. O amor por Évora acompanha-o desde a infância e o desejo de um dia se fixar na cidade era tão forte que chegou a dedicar-lhe um capítulo, intitulado “Viver em Évora”, no seu livro “Falar Piano e Tocar Francês”.

Aos 18 anos, quando se sentiu “um pouco perdido”, entrou no curso de Ciências da Comunicação, em Lisboa, do qual acabou por desistir passado um mês. Já nessa altura, a Universidade de Évora era a sua segunda escolha, com o pensamento de que, se estava perdido, ao menos iria para um sítio de que gostava. “Portanto, sempre soube que mais cedo ou mais tarde havia de viver aqui. Não vai ser a última cidade onde vou viver, mas está a ser um período muito bonito da minha vida”, confidencia.

A logística profissional também se alinhou com a localização da cidade. Com um trabalho de expressão nacional que o obriga a viajar para locais tão distintos como Tavira ou Arganil, estar situado num local tão central revelou-se uma mais-valia. A mudança tornou-se definitiva quando a esposa, Ana Ribeiro – natural do Norte e que Martim conheceu enquanto vivia no Porto – teve a oportunidade de transitar para um regime de trabalho remoto.

A paixão de Ana pelo Alentejo também tinha despertado durante uma visita ao restaurante Tua Madre, tendo sido a partir desse momento que ambos não hesitaram e venderam a casa em Lisboa para se mudarem para o centro histórico de Évora.

Com a cidade a preparar-se para assumir o título de Capital Europeia da Cultura em 2027, não faltaram especulações e até incentivos de colegas para que o maestro, enquanto agente cultural, se envolvesse ativamente no projeto ou concorresse ao cargo de diretor artístico. Contudo, a sua resposta foi sempre a mesma: “Não vim a Évora para trabalhar mais, mas para trabalhar menos, para aproveitar a vida”.

Esta escolha deste modo slow-living permite-lhe viver aquela que descreve como a rotina mais feliz que já teve em qualquer cidade, tendo o neto da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen já residido em Lisboa, Porto, Milão e Chicago. Martim revelou à New in Évora que os dias começam sem despertador, acordando quando tem que acordar, e sem marcar compromissos de manhã.

A primeira grande atividade matinal é um longo passeio com o cão, Oli, com quem explora os campos abertos em redor da cidade, passando frequentemente pelo Convento da Cartuxa, percorrendo os trilhos junto à Quinta da Espada ou acompanhando o Aqueduto da Água de Prata.

Já o pequeno-almoço é na Praça do Giraldo, sendo os seus locais de eleição o Café Arcada ou o Gema D’Évora, onde se acomoda na esplanada, escolhendo estrategicamente um lugar junto à fonte, para que o som da água consiga abafar o “reggaeton proveniente de uma loja de roupa”, um som que admite irritá-lo profundamente. O resto do dia é dedicado ao trabalho em casa.

Questionado sobre já ser ou não considerado eborense, Martim Sousa Tavares surpreende. “As cidades são construídas por muitas pessoas e isso é que faz delas verdadeiras cidades, no sentido da polis, senão é uma aldeia”, reflete ao mesmo tempo que rejeita a existência de diferentes classes de habitantes, Sente-se tão cidadão de Évora quanto um cidadão nepalês a trabalhar na cozinha de um restaurante ou uma família alentejana de oitava geração. Afinal, como o próprio faz questão de sublinhar, vota na cidade, está a criar uma filha entre as muralhas e já lá escreveu dois livros onde fala de Évora.

Mas a vida de Martim Sousa Tavares na cidade conta com outras pessoas que garantem a harmonia familiar. Uma delas é Helena David e é dog-sitter. “Criou uma verdadeira rede de donos de cães na cidade. Recolhe os animais ao final do dia e leva-os em grupo para um parque canino, garantindo a socialização diária do Oli”, explica.

Outro dos locais de eleição do diretor artístico é a Lenhas Cortes, um negócio de venda de madeira localizado na estrada nacional 114. Para um antigo “menino da cidade”, que nunca tinha lidado com lareiras, o espaço revelou-se um ponto de aprendizagem, visto que foi lá que aprendeu a distinguir a combustão do azinho, do sobro, do freixo e da oliveira.

O maestro acrescenta ainda que o que torna o local verdadeiramente inesquecível é o seu proprietário brasileiro, que trabalha ao som de música sertaneja. “De repente, a pessoa entra e está num outro planeta. Já não está no Alentejo, mas sim no sertão brasileiro”, descreve em tom de brincadeira. A ligação ao comerciante tornou-se tão forte que, após as grandes tempestades deste ano que deixaram muita madeira inutilizada, Martim comprou lenha em excesso, guardando-a na garagem para o ano seguinte, apenas com o intuito de ajudar o negócio.

Onde comer

Quando chega a hora de se sentar à mesa, as escolhas do maestro são inevitavelmente o Tua Madre, o restaurante que encantou a sua esposa e que continua a ser uma das suas principais recomendações.

Na lista seguem-se a Taberna Típica Quarta-feira, onde o escritor faz questão de frisar a importância de reservar mesa, por ser um espaço que se destaca pela hospitalidade e pela genuinidade da família que o gere.

Outro espaço obrigatório é o Monte da Graciete, onde o escritor se delicia com um “ensopado de borrego excecional”, rodeado quase exclusivamente por famílias locais, aproveitando mesmo para sublinhar que, mesmo acomodando grandes grupos, o restaurante nunca se torna caótico. A principal atração, ideal para quem vem de fora, é o “bar de migas” do buffet alentejano, que disponibiliza quatro variedades diferentes deste prato típico.

Por fim, destaca a Hamburgueria da Avenida, para uma refeição mais rápida, não escondendo o gosto pelos elogiados smash burgers deste espaço, que experimenta de vez em quando.

Para mergulhar na cultura e onde ficar

Dada a sua ligação à cultura, Martim Sousa Tavares destaca o trabalho de Margarida Lagarto, artista eborense e viúva de João Cutileiro, que pode visitar numa visita ao espólio e Centro de Arte do escultor. Paragem que considera “obrigatória pelo excelente trabalho que ela (Margarida Lagarto) dinamiza naquele espaço”.

O maestro recomenda também a Fonte de Letras, a livraria independente, que descreve como um “oásis literário”, sendo o local onde faz questão de deixar os seus livros autografados e que se destaca por trazer à cidade escritores de renome, como Gonçalo M. Tavares.

A Fundação Eugénio de Almeida é outra das suas sugestões, que embora não aprecie o apelido de “Gulbenkian da Província” por considerar que diminui a instituição, sublinha que o seu valor brilharia em qualquer ponto do país.

Quanto a alojamento, se amigos ou familiares o visitarem, a recomendação é o Convento do Espinheiro. “Nunca lá fiquei a dormir, mas tenho consciência de que aquilo é mesmo incrível”, conclui.

Carregue na galeria para conferir alguns dos espaços preferidos de Martim Sousa Tavares em Évora.

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