“Um dia ainda vou ser famoso”. Era esta uma das frases que Tomás costumava dizer aos pais, com a alegria de quem tinha a vida inteira pela frente. Para Ana Margarida Cardoso e para o marido, Rui Cardoso, ambos com 47 anos, o filho era o centro do mundo. Hoje, fisicamente ausente após um acidente, o jovem continua a ser o motor de cada dia desta família. Para garantir que o seu nome, o seu abraço e a sua luz nunca caem no esquecimento, nasceu a marca de roupa Kokky Smile.
A estreia oficial na Feira de São João revelou-se um sucesso e quase todo o stock foi vendido em poucos dias. Os planos para o futuro já estão traçados e incluem o lançamento, em breve, de uma página oficial nas redes sociais para encomendas online, a introdução de sweatshirts com capuz e até a criação de uma associação para erguer um mural de homenagem a Tomás na cidade.
Quem conheceu o jovem, não hesita ao recordar um miúdo excecional e um aluno de excelência a todas as disciplinas. Mas o que o distinguia não eram apenas as notas, mas a generosidade. Filho de uma professora de Matemática, Tomás tinha uma facilidade natural com os números. O que os pais só vieram a descobrir mais tarde, através de um relato da sua professora da mesma disciplina.
Sempre que terminava os trabalhos de casa, dedicava-se discretamente a ajudar os colegas, para que ninguém ficasse para trás. “O Tomás fê-lo durante anos e nunca ninguém soube. Não dizia que os ajudava, fazia aquilo porque gostava deles”, recorda o pai, com orgulho.
Outro episódio aconteceu durante uma viagem familiar a Valência, em Espanha, enquanto jantavam. Uma pessoa sem-abrigo passou a pedir auxílio e, sem hesitar, Tomás entregou-lhe uma grande fatia da própria pizza. “Aquilo para o Tomás enchia-lhe o coração, ajudar os outros. Parecia que não era um menino que pertencia a este mundo”, emociona-se o pai.
Além do altruísmo, era um jovem de afetos. Adorava o pôr do sol, a praia e, acima de tudo, o toque humano. “As amigas contam que quando se sentiam mais em baixo, pediam um abraço ao Tomás e era terapêutico, reconfortante”, partilha a mãe. “Não era fingido, ele abraçava mesmo as pessoas”. Ana Margarida confessa que a ausência física é o que mais lhe dói no quotidiano: “Sinto muita falta do abraço e dos beijos do Tomás”.
Foi na sexta-feira, 10 de outubro de 2025, que os três foram jantar fora, regressando a casa por volta das 22 horas, Tomás pediu para dar uma volta de mota com um amigo. Cauteloso, costumava orgulhar-se de ser o único do seu grupo de amigos que nunca tinha caído de mota, tendo sido por essa razão que os pais aceitaram o pedido. O regresso ficou combinado para as 23 horas.
“Nesse momento, mudei de dimensão”
Quando o relógio marcou a hora combinada e o jovem não apareceu, Ana ligou-lhe. Tomás atendeu, explicando que se encontrava na Praça do Giraldo e que estaria em casa em 10 minutos. No entanto, às 23h15, o silêncio persistia e as chamadas deixaram de ser atendidas.
Pouco depois, bateram à porta e era a mãe do amigo que o acompanhava, trazendo a notícia de um acidente. Em vez de seguirem logo para casa, os jovens tinham ido dar a volta à rotunda e, num momento em que circulavam a cerca de 40 ou 50 km/h, Tomás terá olhado para trás para verificar onde vinha o amigo Vasco. Bateu no passeio e foi projetado contra um poste.
Quando os pais chegaram ao local, só perceberam a gravidade ao verem as manobras de reanimação à frente da ambulância. Já no hospital, pelas 00h45, a pior confirmação chegou através do gesto de um médico, que abanou a cabeça. “Nesse momento, mudei de dimensão”, desabafa Ana. “Foi como se deixasse de estar a viver nesta dimensão e fosse para outra. Ainda me sinto a levitar”.
Para combater a dor e o medo de que o filho pudesse, um dia, deixar de ser lembrado, Ana encontrou refúgio nas palavras. Apenas um dia após o funeral, realizado na terça-feira seguinte, começou a escrever. Sendo professora de Matemática e avessa à escrita, sentiu uma força inexplicável. “Senti uma ansiedade muito forte e uma força extra que me levou à escrita do livro. Tinha que deixar escrito, tinha que deixar uma marca de como era o Tomás e do quão especial foi“, explica.
Escrito em quatro dias, o livro foi apresentado a 16 de dezembro no auditório da Igreja dos Álamos, em Évora, somando já mais de 700 vendas e ultrapassando todas as expectativas da família.
Kokky Smile, a marca de roupa para lembrar Tomás
Contudo, o desejo de manter o espírito do jovem vivo foi ainda mais longe e materializou-se agora no lançamento de uma marca própria, batizada de Kokky Smile. Era o nome que Tomás usava nos jogos de PlayStation e que se transformou na sua alcunha entre os colegas. Smile é uma homenagem ao seu sorriso, a sua imagem de marca.
“O meu maior medo é o Tomás deixar de ser falado”, confessa a mãe. “Ao comprarem uma T-shirt ou uma sweatshirt, quando a vestirem, lembrem-se: ‘olha, vou vestir a camisola do Tomás’. E pelo menos, naquele bocadinho, estão a lembrar-se e a falar dele”, refere.
O regresso à rotina laboral no final de janeiro tem exigido força. “Faço um grande esforço para conseguir levantar-me todos os dias de manhã para ir trabalhar”, confessa a professora. Lidar com alunos do 10.º ano, muitos da mesma idade, amigos e conhecidos do filho, que conversam sobre os mesmos videojogos e paixões, aciona gatilhos emocionais constantes. “Vejo aqueles jovens e não o meu. E isso tudo é demasiado para mim”, admite.
Também para Rui, investigador criminal da PSP na área da violência doméstica em Évora, a perda trouxe outra profundidade ao seu trabalho. O policia, que antes trabalhou na segurança de presidentes, vê agora os conflitos familiares com um olhar diferente.
“Muitos pais brincam com a vida dos filhos para atingir o outro e peço sempre que não façam isso. Muitas vezes perguntam-me: ‘O senhor está a dizer isso, mas se calhar não é pai’. Quando explico que o meu filho não está presente, as pessoas começam a chorar ou a pedir desculpa”, relata Rui. “Tenho orgulho imenso em ser o pai do Tomás, serei sempre o pai deste menino maravilhoso”.
Perante a dor de perder um filho, é na cumplicidade e na fé que o casal encontra força. “Quando isto acontece, a relação passa a ser diferente. O amor transforma-se numa entreajuda. Somos um casal acima de tudo muito amigo, porque se não for assim não se consegue continuar”, confidencia Rui.
Essa mesma união transformou a forma como encaram as tradições. O casal chegou a pôr de parte as férias de verão pela dificuldade de estar na praia sem o filho, mas mudaram de ideias pela sua memória. “Pensamos assim: se o Tomás estivesse aqui fisicamente, onde é que ele gostaria de estar? Na praia. Então vamos em forma de homenagem, porque sabemos que fisicamente ele não está, mas que nos acompanha”, explica.

Acompanhados por profissionais de psicologia e psiquiatria, encontram na fé, na cumplicidade como casal e nestes projetos a força diária para caminhar, sendo esta marca o principal refúgio e motivação.
Mais importante do que as vendas, está o desejo de que as pessoas não tenham receio de abordar o tema. “Muitas vezes existe receio de falar de falar no assunto, mas pedimos que falem, que não se esqueçam dele”, apela Rui.
O menino que prometia ser famoso está a conquistar o coração do País e a história da família será partilhada em breve na televisão, com presença dos pais agendada para o programa de Júlia Pinheiro na SIC no dia 8 de julho.
Carregue na galeria para conhecer o projeto dos pais de Tomás.








