fora de casa

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Tem 44 anos e criou um projeto para devolver aos miúdos o prazer de brincar na terra

O "Terra a Terra" nasceu no Bairro da Comenda e desafia os mais novos a trocar os ecrãs pelas brincadeiras na natureza.

A infância mudou ao longo das últimas décadas. Se, no passado, os miúdos passavam as tardes na rua, com as mãos sujas de terra, a trepar às árvores e a usar a imaginação, hoje o cenário é diferente. Entre as vidas sobrecarregadas com atividades extracurriculares e os ecrãs, o tempo para explorar o mundo real ao ar livre está cada vez mais escasso.´

Foi para contrariar esta tendência, mas sem visões radicais, que nasceu o Terra a Terra em Évora. O novo projeto quer devolver às novas gerações o contacto com a natureza, proporcionando um espaço seguro para que aos mais novos possam ser, simplesmente, crianças.

A mentora desta ideia é Teresa Fernandes, de 44 anos, uma apaixonada pela educação e pelo campo. “Sou neta de engenheiros agrónomos, sempre estive em contacto com a natureza e com o campo desde pequenina”, conta à NiE. Esta ligação à terra acompanhou-a ao longo de toda a vida, moldando a sua personalidade, a forma de educar os três filhos e o percurso profissional.

Educadora de infância desde 2006, Teresa acumulou experiência após largos anos a trabalhar em diversos contextos educativos, desde creches a jardins de infância, passando pela coordenação e dinamização de atividades numa quinta pedagógica.

“Sempre tentei atingir os objetivos curriculares através de práticas que promovam a abordagem ao ar livre e as metodologias ativas de aprendizagem, nomeadamente a metodologia de trabalho de projeto”, explica. O que começou por ser um interesse pelas dinâmicas de exterior, rapidamente se transformou numa missão de vida, sustentada por estudos e provas pedagógicas sobre os benefícios da natureza no desenvolvimento infantil.

Uma pausa forçada

Apesar de a ideia para a criação de um espaço próprio já estar a germinar na sua mente há bastante tempo, foi preciso um interregno forçado na carreira para que o projeto ganhasse finalmente raízes e visse a luz do dia. Após ter dado o salto das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) para a realidade do ensino público, Teresa deparou-se com um período de espera inesperado para obter colocação.

“Tive um hiato de 472 dias em casa, o que me permitiu reorganizar e poder pôr em prática o que era um sonho antigo.” Foi nesta janela de oportunidade que encontrou o momento ideal e a disponibilidade física e mental necessária para estruturar e dar corpo ao Terra a Terra.

Os primeiros passos foram dados em março deste ano, altura em que o projeto abriu oficialmente as portas, começando com um grupo próximo de famílias e amigos que partilhavam a mesma visão.

Atualmente, Teresa já se encontra colocada no ensino público, mas recusa-se a abdicar do seu projeto de coração. “Acaba por complementar à minha profissão. Este projeto pretende dar espaço a que as famílias em Évora possam ter contacto com o brincar ao ar livre, com a natureza como forma de atingir objetivos pedagógicos“, reflete.

A grande missão do espaço, localizado no Bairro da Comenda, mesmo em frente à escola primária, é assumir o brincar ao ar livre e a exploração com os elementos centrais e do desenvolvimento infantil. Para a fundadora, não se trata de diabolizar a tecnologia ou a sociedade moderna, mas criar e oferecer alternativas saudáveis.

“Não sou fundamentalista. Acho que não podemos dizer que temos de reduzir totalmente o tempo de ecrã, porque as crianças são desta época e não há como contornar. Mas temos de equilibrar tempos de contacto com o mundo real e o universo digital”, sublinha a educadora.

“O mundo digital ajuda-nos muito do ponto de vista do que são as ferramentas de apoio à educação. Mas sinto que, cada vez mais, precisamos de voltar à conexão com a natureza, com o que nos rodeia e com o outro”, acrescenta.

O Terra a Terra foi desenhado para responder às necessidades de desenvolvimento dos miúdos dos três aos 12 anos. O funcionamento diário e mensal assenta em dois tipos de atividade, pensadas para abranger o máximo de famílias possível.

A primeira, que já se tornou a imagem de marca do projeto, são os “Sábados de Natureza com Famílias”. Tratam-se de sessões regulares, a decorrer com uma periodicidade quinzenal, e com a duração de cerca de duas horas. Estas manhãs ou tardes funcionam como um ponto de encontro e conexão.

“Pretende ser este espaço de encontro, de partilha e de criação de memórias em família. Promove momentos de conexão entre crianças e adultos através do contacto com a natureza, do brincar livre e de experiências vividas em conjunto com os pais, que são tão importantes em termos de qualidade”, salienta Teresa. Nestes momentos, os adultos são convidados a sujar as mãos, a sentar-se na relva e a redescobrir o mundo através do olhar deslumbrado dos mais novos.

Além do público principal, o Terra a Terra tem a preocupação de incluir toda a família. Por isso, de forma esporádica e através de edições especiais, existem sessões dirigidas a bebés dos zero aos três anos onde as famílias são convidadas a mergulhar numa experiência onde o essencial é brincar, explorar e estar. Os bebés exploram texturas naturais, folhas, terra, cheiros e sons, privilegiando a descoberta livre, enquanto se fortalecem os vínculos emocionais e familiares logo na primeira infância.

Já a segunda foca-se nos períodos de interrupção letiva, uma resposta para os pais que trabalham e que procuram soluções de confiança durante as férias escolares dos miúdos. Depois do sucesso da primeira edição da “Páscoa na Natureza”, o foco está agora virado para o programa “Verão na Natureza”. Esta iniciativa oferece aos participantes sessões duplas (de manhã e de tarde), a decorrer das 10 horas às 16 horas. As atividades decorrem ao ar livre, em ambiente natural, com propostas lúdicas e desafios ajustados a cada faixa etária.

As sessões agendadas para julho, entre os dias 15 e 26, já se encontram esgotadas. No entanto, ainda existem vagas em aberto para a quinzena de 31 de agosto a 11 de setembro. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas online.

Mas Teresa, que diz ser uma sonhadora com os pés assentes na terra, não quer ficar por aqui e já tem os olhos postos no futuro. A curto e médio prazo, o principal objetivo passa por conseguir manter este ritmo consistente, conciliando as sessões familiares quinzenais de fim de semana com as dinâmicas dos programas de pausas letivas. “Muitas vezes ouvimos dizer, desvalorizando, que ‘é só brincar’, mas é muito mais do que isso. O brincar é tudo”, reflete.

A longo prazo, os planos são ainda mais ambiciosos. “Quero poder alargar o raio de ação e dar os primeiros passos de forma gratuita. Disponibilizar-me para falar com as famílias, num âmbito mais escolar, sobre esta importância de brincar ao ar livre”, ambiciona a fundadora.

Para um futuro próximo, a intenção é também sair das fronteiras do seu espaço e abrir canais de diálogo com outros colegas de profissão na região. Teresa quer criar grupos de partilha de experiências, conhecimentos e, quem sabe, numa fase de consolidação do projeto, começar a receber turmas e grupos de escolas no seu espaço.

A ideia é dinamizar sessões abertas e complementares ao contexto escolar, servindo de extensão viva e natural à sala de aula tradicional. “Neste momento isso não é possível, porque não tenho disponibilidade, uma vez que estou a exercer a tempo inteiro”, esclarece. Até que esses novos passos se concretizem, o desejo de Teresa é que o Terra a Terra continue a trilhar o seu caminho e a conquistar o seu espaço na cidade de Évora.

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